quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

XXXI


A resolução de voltar à América do Sul e o encontro com o astrónomo turco

Embora tivessem acreditado, durante algum tempo, que a vida e o trabalho na quinta os libertava de três calamidades – o aborrecimento, o vício e a necessidade –, o certo é que Cândido, Pangloss, Alian, Cunegundes e os outros não aguentaram muito tempo aquela vida demasiado rural e preferiram arriscar sujeitar-se às sevícias da necessidade, a fim de voltarem a saborear os estímulos do vício urbano e, sobretudo, livrarem-se da assoberbante prevalência do aborrecimento. Venderam a quinta a um fellah que tinha um negócio de hortaliça porta-a-porta, dirigiram-se ao porto de Constantinopla e compraram passagens no cargueiro Payflower que se dirigia a Sacramento. Tencionavam, a partir desse destino, viajar para norte e, quiçá, voltar a encontrar o Eldorado, de grata memória, ou mesmo Curitiba, que as lendas diziam ser ainda mais fabulosa.
A viagem foi longa e Pangloss entretinha-se a perorar sobre os efeitos e as causas no melhor dos mundos possíveis. Dizia que Deus escrevia direito por linhas tortas, pois, se quisesse que eles se transformassem em amáveis agricultores, não lhes tinha inculcado enfado na alma e calos nas mãos. Cândido aprovava e apalpava o interior das ditas. Alian dizia que Deus era uma criação humana e que, portanto, era efeito e não causa. E que o livre arbítrio existia, não por maquinação sub-reptícia de um deus mal assumido, mas pela ausência desse mesmo Deus, fosse bondoso, como o mito cristão gosta de o pintar, ou cruel e vingativo como o do Velho Testamento. Cunegundes, enjoada com os balanços do navio, passava a maior parte do tempo dentro duma nebulosa etílica.
A bordo seguia também um matemático e astrónomo turco que raras vezes se via, porque passava as noites no convés a admirar as estrelas. Certa vez, envolveu-se numa troca de opiniões com Alian e Pangloss.
– A grande demanda da minha vida – dizia ele – é conseguir realizar a quadratura do círculo. Estou convencido que em breve a alcançarei.
– Ah, caro leitor, perdão, amigo – retrucava Alian – temo desiludi-lo, mas tal é impossível. É que Π (Pi) é um número transcendental e como tal não pode ser construído um segmento de recta equivalente, usando somente régua e compasso.
Esta resposta, avançada para o seu tempo, levou a uma longa discussão que seria ocioso transcrever, mas que, duas horas depois, evoluiu para:
– Também hei-de provar que Fermat não tinha razão – arrazoava o turco. – A grande demanda da minha vida é encontrar um expoente diferente de 2 que sirva a equação apresentada por ele.
Pangloss, adiantava-se:
– A harmonia pré-estabelecida não pode ser alterada, sem que o mal apareça. Tudo está bem como está.
E outros cumes de elegante argumentação.
Por fim, aportaram à colónia de Sacramento, às primeiras horas de 26 de Dezembro, onde ninguém os esperava.


***

Votos de continuação de boa viagem, Alian!

Um comentário:

  1. Não poderia esperar outra coisa, se não, uma verdadeira Obra de Arte. adorei pertencer a essa trupe.

    Muito agradecido, Joaquim!

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