quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Quinhões


Está na forma como a gravidade em nós despeja limitações. Primeiro, o não- decolar. Depois, o não-desejo. Inicial momento, ainda crianças, coisas a Natureza proporciona e as vemos sem de nada duvidar. São tantos surpresas, tantas possibilidades... Mas então vem a gravidade e nos limita as ações. Percebemos, não somos capazes de tudo. O mundo é um lugar de escolhas e opções... tão restritas. Eis que passam-se os anos, driblam-se os problemas, esconde-se o que é diferente e enfoca-se no que é igual, até que, numa bela manhã de domingo, a gravidade vem para nos limitar outra vez. Ela ataca, desconstrói e impossibilita alguns de nossos melhores sonhos. Uma vez Aquele Sonho limitado, nada mais há que restringir.

Maria de Fátima ainda sonha.

Enquanto o oxigênio percorrer seu corpo trazendo vida e morte, ela o fará. Sim, todos os dias ela inspira. E todos os dias expira. E ouve enquanto expira. E enxerga enquanto inspira. E vê as belezas da Ponta da Piedade. Sim, Piedade. Ela vê Sua falta nas orientações humanas, se envergonha com elas... como é de se esperar. E sente as vibrações que emanam do mar, que tanto ama.

Percebe as crianças brincarem perto das falésias. Mal sabem as coisas que as esperam ao virar da esquina da vida. Maria de Fátima viu, vê, verá... tantas coisas... que é capaz de nem se lembrar de todas. Eu já não me lembro.

Golfinhos e gatos em Algarve.

As partes que nos cabem.

A bola das crianças jogada para longe. Pelo vento. Para a água. No mar, indo e subindo... O movimentar das ondas. A menor das crianças. Roupinhas vermelhas. Todo brinquedo tem seu resgate. Braçadas sem jeito. Perninhas. Mais longe. E mais longe. Tão longe. Desespero.

Quão longe?

E a gravidade decepa alguns de nossos sonhos, os leva para si.
Areia branca. Chuva e luar. A vida se constitui por marés.
Já não basta evitar as baixas?

O corpinho afogado volta pelas falésias. Piedade divina que os corpos sejam devolvidos para as suas mães! Mas vida lá não existe. Já não persiste. E como ter a certeza que ali um dia existiu? Que a vida é verdade, afinal? Deixem que nossas certezas nos inundem, até o momento em que com elas nos afogaremos!

E então terá acabado.

Maria de Fátima se levanta. Em Lagos, o socorro e a noite chegaram. Conforta-se a família e amigos da vítima. Conforta-se o acaso. Conforma-se com os quinhões nos quais se concentra esta trilha.

* * *

Assim são nossos sonhos: garotas, garotos e brinquedos – coisas pequenas.

Estimada, Maria. Que seu ano seja repleto de mares e marés.
Porque a vida não teria graça se fosse fácil demais.
Simples demais, previsível demais.
Feliz demais.

É bom que vícios nos adquiram e nos abandonem. É bom que alguns sonhos morram na praia, para que outros sobrevivam a estes – maiores e mais fortes.

Desejo que viva bem, sofra bem e seja mais ou menos feliz, sempre tendo algum controle para evitar os exageros, porque se alguém é muito realizado é porque na verdade não é realizado porra nenhuma!

Bom natal e boas festas, esses são outros desejos do seu amigo de Oficina, Renan Rossi.

Um comentário:

  1. e o que me espanta ( e gostava de entender ) é como foi enredar esta trama
    quero eu dizer: de onde retirou o tema e a substância que lhe deu forma
    (re)leu-me?
    se assim foi: obrigada, homem!
    se não...como?
    em noite de Natal, eu fico saboreando o naco de prosa, mas pensando nas perguntas sem resposta e deixando subir aquela verdade gorda de afogada ondulando onda:
    "afinal eu ando sempre me banhando nua na babuja..."

    a vida Rossi
    gostei demais disto, acredite

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