segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Portas - por Denis Cruz

A escuridão caiu manhosa, como uma cortina que desce lentamente no fim de um espetáculo.

- A chave! - disse a mulher de cabelos escuros. Em seus lábios, o habitual sorriso cedia lugar para um fino risco apertado, onde a carne vermelha embranquecia, como se tivesse beijado a morte. – Devolva-me a chave – até o som parecia cair, como se não dissesse palavras, mas cuspisse chumbo.

Sem paredes, sem chão. Um vazio extremo, um mundo inexistente. Inconsistente, inconsciente. Não... Inconsciente não. Era justamente isto: a consciência.

Houve tempo para se arrepender. Aliás, tempo não faltaria naquele lugar de imensidão escura.

Praguejou ao lembrar-se daqueles olhos verdes, pregados num rosto flácido, com lábios de onde pendia um fio de baba.

- Bom dia? – disse ela, a doutora, sentando-se em frente ao paciente de olhar perdido.

Folheou a ficha, sem esperar resposta, mas quando levantou os olhos, estava noutro lugar. Era luz. Era completo, repleto. Colorido, intenso. Musical como a lama primal. Um universo diferente, de céu rosado, flores com perfumes exóticos e cores híbridas.

- Bom dia, doutora – disse o homem (o ser) de intensa beleza. Lembrava a imagem do rosto deformado de seu paciente, mas remodelado em feições angelicais – Sou eu, Lisan, o esquizofrênico sentado na cadeira de rodas – sorriu ele, enquanto em seu pescoço balançava o único objeto escuro de todo cenário: uma chave negra, com três dentes e um olho alaranjado situado dentro de um triângulo.

A médica não tinha palavras. Estava sonhando, delirando? Sim, era isto. Muito trabalho e acabou por se impressionar com as vertiginosas viagens de seus loucos... não, loucos não... é antiético chama-los assim.

Meneou a cabeça, como um bêbado que tenta retomar os sentidos. Mas todo aquele universo ainda estava diante dela.

- Venha – disse Lisan estendendo a mão para a médica – Vamos andar.

Portas erguiam-se em todos os lugares, apoiadas no nada. Lisan, retirou a chave negra e a girou na fechadura de uma das portas – a dourada. Um mundo de riquezas se descortinou diante deles. Um rei sentado num trono, alegre, banhava-se com moedas e sorria... Loucamente sorria.

- É a mente de um de seus pacientes – explicou o guia – Com a chave, navegamos por onde quisermos.

Ainda sem palavras, a psiquiatra fitou Lisan. O anjo – era assim que a médica o conceituou naquele momento, por menos que acreditasse na existência de tais seres – estendeu-lhe a chave e disse:

- Você a quer?

“Sim, claro,” ela tentou dizer, mas a resposta veio em suas mãos ávidas que abraçaram o objeto negro. A chave sussurrou promessas e dádivas quando os dedos de sua nova dona se fecharam em torno dela.

A doutora acordou do transe. O débil homem ainda babava na cadeira de rodas, mas a prancheta de anotações estava no chão. Ao abrir lentamente a mão, ali estava a chave. O olho alaranjado a fitava e a médica teve a impressão de vê-lo piscar sinistramente.

Nas semanas que seguiram, a psiquiatra aprendeu a usar o objeto negro. No manicômio em que trabalhava, sentava-se no canto da sala, repleta de pessoas fora da realidade. Segurava firme na chave e viajava.

Seu próprio mundo era branco, com pouca cor. Plano, sem montanhas. Um reflexo, imaginava ela, daquele mundo pálido que é o manicômio. Esperava mais da própria mente. Esperava encontrar borrões felizes feitos pelos filhos e outras infinitas alegrias da vida, mas nada estava ali. Apenas a imensidão branca, revelando sua devoção pelo trabalho. “Escravidão”, sussurrou-lhe a chave, mas a doutora fingiu não ouvir.

Viajou pelas mentes de seus pacientes. Visitou as esquizofrenias de dentro do próprio consciente... ou inconsciente, não sei como chamar.

Entrou na porta negra, manchada de sangue. Lá dentro, cadáveres serviam de fonte para um rio vermelho. O fedor de carne podre convidava ratos e corvos para o banquete. Seu morador? Um louco homicida.

Na porta rosa, encontrou crianças alegres, frutos da mente de um pedófilo sorridente, com seu sonhado harém pueril. Visitou mundos vazios, com apenas uma criança encolhida no meio do nada, em posição fetal e “boiando” no ar.

Alegrias, tristezas, dores, todas retratadas de alguma forma, não em imagens desenhadas, não em palavras balbuciadas; sem técnicas médicas, roteiros ou livros explicando qualquer moléstia. A doutora estava lá dentro; na mente dos pacientes, vendo o que viam, sentindo o que sentiam; conhecendo o – estranho – mundo interno de cada um.

Finalmente, no meio de tantas portas, a médica encontrou uma colorida. Nela, a chave girou com um clique.

- Lisan, é você? – disse ela, espiando o mundo de cores pela greta da porta.

O anjo aproximou-se. Sorriu e atravessou o que para ele era uma porta branca.

- Seu mundo precisa de mais cores, doutora. Atravesse de novo e pegue as que quiser, em minha mente.

Ela retribui o olhar alegre como uma menina que ganha baldes de tinta para pintar uma parede. Entrou num mundo de cores fortes e, quase sem querer, lembrou-se que a violência era retratada por aqueles tons intensos nos desenhos de seus pacientes. Virou-se para trás. Lisan estava sob umbral, com um sorriso de demônio desenhado nos lábios. A chave negra novamente pendia-lhe no pescoço.

A doutora tentou correr de volta, mas seus pés afundaram num chão pantanoso enquanto a porta branca para sua mente se fechava e a escuridão vinha.

- A chave! – conseguiu gritar as primeiras vezes, mas, depois, foram apenas sussurros que esvaíam no vácuo escuro da mente alheia.

****

- Doutora Márcia! – dizia uma enfermeira enquanto chacoalhava o corpo inerte da psiquiatra, sentada no canto da sala dos pacientes. O insano fio de baba agora pendia em sua boca. – Doutora Márcia!

- Estou bem, estou bem! – disse a médica, recobrando os sentidos e limpando a umidade nos lábios – Acho cochilei.

A enfermeira sorriu aliviada (por um segundo, pensou que a médica tinha entrado em algum estado catatônico, como alguns dos pacientes). Quando a doutora Márcia se despediu, sua auxiliar não percebeu um sorriso diferente nem, muito menos, que olhos esverdeados ocupavam, agora, as antigas órbitas azuladas da porta de sua alma.










MEU AMIGO SECRETO? Márcia. Grande abraço e Feliz natal

5 comentários:

  1. Visualizar o mundo mental dos loucos - uma boa idéia!
    Inquietante! Não sei se gostaria de ter uma homenagem assim.

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  2. denis, gostei muito! obrigada!
    na verdade, acho que viajo mesmo pela loucura - não só dos meus pacientes... rsrsr - todos os dias... e, sabe de uma coisa? é realmente um mundo colorido... um pouco assustador, por vezes... mas de modo algum monótono ou tedioso...

    feliz natal pra vc tbm! gostei muito do presente!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. texto soberbo! retrato impressionante de encontros com o louco!

    (perdoa. tinha uma pequena gafe)

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  5. Uau! Que maravilha de imagens! Gostei muito deste viagem pela insanidade. Belo presente à nossa querida doutora!

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