quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O Vôo 309
Alian Moroz


Mal chegou a Paris e já estava com as malas prontas para mais uma empreitada. O vôo saia às nove, mas tinha certeza que a decolagem atrasaria. Em Pparis sempre atrasava.
O celular toca. Precisava mudar o toque da música do Bee Gees.

– Oi! Silvana? Eu sei menina, eu sei . Já estou pronta. Você vai também? O carro de serviço estragou? Vamos de táxi. Passa aqui e vamos juntas. Xaus... beijo.


Uma garoa deixava a noite mais fria , entretanto a cidade Luz ficava mais bela. Giselle gostava da metrópoles francesa. Lembrou com carinho das noites vividas junto a Cassiano, um italiano legítimo, e não aquela falsificação malograda; o Ferreira,

O táxi espera pouco até Giselle descer e embarcar. Silvana, a amiga de longa data, parece ansiosa.
– Vamos logo, Gi.
–Calma, Sil, você sabe muito bem que em Paris sempre atrasa.
Silvana arranja uma feição irônica.
–Entra logo que eu tenho um babado para te contar.
Giselle, a nissei de pernas grossas e pele amorenada, espalha o sobrolho.
– Ah, Sil, você e suas fofocas.
– Não quer ouvir tudo bem, não conto.
O motorista do bólido dá uma olhadinha pelo retrovisor como que pedindo: “conta logo sacre pluir”.

–Adivinha quem vai pilotar o vôo das Nove?
Giselle pesa o olhar.
– Por favor, não me diga que é o Ferreira...
– Está bem, eu não digo...
–Ai, meus Cavaleiros Templários...o Ferreira não!! – indaga Giselle batendo a mão três vezes no vidro do automóvel.

Naquela noite o Big Ben parou, a Torre de Pisa desentortou e um vôo de Paris não atrasou. Justamente o das Nove.

O encontro com o Capitão Ferreira e a Comissária de bordo Giselle foi frio. Olhares mudos e gestos vazios. Contudo a tensão estava no ar, literalmente.

– Você viu o jeito que ele te olhou, Gi?
– Não.
– Como não?
– Eu não olhei para ele, por isso não vi como ele me olhou, Silvana. Agora pare de fofoca e vá cuidar da poltrona 56-B. Um gordo vomitou a janta.
– Eca, Gi. Por que não manda a Rafaela?
– A Rafaela está ocupada. Vai logo.
– Sacana, não vou te contar quem está aqui, na Segunda Classe.
Gi faz uma reza em silêncio. A amiga parecia o jornal das oito. Só trazia notícias ruins.
– Desembucha. – ordena Giselle.
– E o gordo? – rebate Silvana.
–Rafaela! Venha um minuto aqui, por favor...

Gi foi pessoalmente à Segunda Classe. Tenório não se atreveria a vir atrás dela novamente. Não depois do episódio da polícia.
Da ponta do corredor central ela avista-o.
Se aproxima enquanto lembranças permeiam sua visão. Tenório, policial aposentado. Grandes olhos profundos, calvo, porém uma calvície do tipo intelectual. O conhecera numa formatura. Acabou tendo um caso com ele, duradouro por longos três anos. No começo, uma felicidade. No interlúdio uma realidade. No fim, uma temeridade.

Tenório era bom , mas tinha tendência para dramaticidades. Conhecera homens com grande tendência a serem cornos, mas Tenório era uma assumidade papal. A última vez que o vira, fora na despedida de Fernandinho. O garoto iria viajar e os amigos lhe deram uma festa. Tenório mandou plantar um papelote de cocaína no apartamento do menino. O besta gostava de inventar amantes para ela. Só não sabia a idade de Fernandinho. Uma criança de seis anos era muito jovem para ela. Foi uma confusão.
–Tenório! – indaga Giselle.
–Gi ! Que surpresa.
–Não me venha com essa conversa mole que eu te conheço. Não sabia de sua estadia em Paris.
– Onde mais poderia lhe achar, minha querida?
–Que tal no Inferno? Pois é isso em que se transformou minha vida depois de você. – responde ela com voz ríspida.

Ele desabotoa um botão do paletó clavier e sorri.
– Vim lhe fazer uma proposta, meu amor.
Giselle já escutara aquele tom de voz antes.
– O que você aprontou, Tenório.
– Que mania de me rebaixar, Gi. Não aprontei nada...ainda...
Ele abre o paletó e deixa-a ver um artefato parecendo um detonador. Ela se abaixa e sussurra no ouvido do ex.
– Tenório,.isso, por um acaso, não é uma bomba....
–É sim. E vou detoná-la se por um acaso não casar comigo, agora.
A cor foge de seu rosto amorenado.
–Agora?
–Sim. Está vendo esse senhor ao meu lado? É um juiz de paz. Ele vai nos casar.
– Mas...
– Ah , ele não tem medo de morrer. É depressivo, iria pular do décimo-sexto andar de um edifício. Convenci a me ajudar.

Uma voz chama por Giselle, vinda do começo do corredor. Era Silvana.
– Gi! O Capitão Ferreira quer lhe falar. Urgente.
Tenório se espalda quando ouve o nome do rival.
– É o Ferreira quem está pilotando esta geringonça? Agora é que vou mandar tudo para os ares mesmo.
– Tenório, calma. Já estamos nos ares. Por favor. não faça nenhuma besteira. Vou lá conversar com o Ferreira a já volto, certo?
– Você tem cinco minutos, senão eu vou explodir todo mundo aqui..
O juiz suicida ri com o canto da boca.

Giselle se apressa ao chamado. O avião dá uma balançada e ela torce o tornozelo quando o salto do sapato quebra. Segura-se em uma poltrona. O homem gordo olha para ela. Ele está amarelo.
Chegando na cabine, bate antes de entrar. Lembra dos tempos passados com Ferreira. Ele era mais velho que ela. Um italiano de ascendência portuguesa. Era baixo e com cabelos encaracolados, como suas idéias. Giselle tinha o “dedo podre” para homens.
Ela nunca fora ciumenta. Traição é um nome muito forte para denominar uma pulada de cerca. Ela sabia que Ferreira , com um queixo largo e covinhas no rosto, atraía mulheres. Giselle não se importava com isso. Só quando pegou Ferreira na sua cama com três travestis brasileiros é que ela perdeu a compostura. Ficou furiosa. Isso já era demais.

A porta da cabine abre. Ela vê rostos assustados. O co-piloto está suando e sangra na cabeça.
– Ele ficou louco Gi! – balbucia o mesmo.
– Cala a boca seu merda! – grita Ferreira.– Pensa que io não sei de suas escapadas com os mesmos travecos! Porca miséria. Tuto puto!.
– Ferreira, o que significa isso? – pergunta Giselle.
–None agüento mai viver sem ti , mia querida. Te quero comigo. Juro-te amore eterno.
– Ferreira, não estou entendendo ainda.
Ele dá uma guinada no manche, fazendo a aeronave corcovear.
– Mai vai entender alhora. Ou tu volta pra mim ou jogo esta porcaria aqui de cima. Morremo tuto. Ou volta pra mim ou jogo este avione no chão!

Silvana que estava por perto arregala os olhos, tapando a boca com as mãos.
–Vamos cair! – sai gritando pelos corredores, assustando os passageiros – Vamos cair!

Bem , cara amiga Gi, já deve saber que você é minha amiga secreta. Ciente que você é uma aeromoça aposentada, te coloquei nessa situação. O que fará? Pode terminar a estória pra mim?

Um grande Beijo e um feliz 2009.

3 comentários:

  1. Morri de rir, adorei porque tenho uma amiga Silvana e fizemos mil vôos. Gostei demais pq infelizmente, eu era muito comportada, segui o conselho da minha avó: onde se ganha o pão, não se come a carne... E por isso a velha deve ouvir sempre uns xingamentos lá do além.
    Calma! Vovó é das minhas.
    Olha Al o final do conto é impróprio para menores, vou postar no Trilhas, aqui não tem aquela coisa de mentir dizendo que é maior.

    Sensacional querido amigo...amei de paixão. Bom Natal....

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  2. Acontecem coisas nessa Oficina que nem o diabo explica...rsrsrs

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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