quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O NASCIMENTO DE MARISTELA

por Carlos Alberto Barros




A grande cozinheira observava com amor seu precioso livro de receitas. Na capa, seu nome escrito em letras douradas: Maria Guerta Scheuer Deves. Sim, era um livro muito especial, e nem tanto por ser a fonte mágica de todas suas deliciosas receitas, mas por ser a maior herança deixada por sua avó, Oma Guerta Scheuer Deves.

Preparando-se para a mais importante receita de sua vida, Maria Guerta se recordava de quando era apenas Mariazinha. Parecia fazer tão pouco tempo... Como ela se extasiava com as maravilhosas guloseimas de Oma!

Lembrava-se de quando conheceu Kerb, o gato falante da avó, e como ficou espantada. “E aquelas patinhas na cintura foram demais!”, pensava e ria.

– Lembra quando nos conhecemos, Kätzie? – perguntou ela para seu gatinho assistente.

– E como poderia esquecer, minha ama? Foi um dia muito especial – respondeu Kätzie.

– É, foi sim... Às vezes bate uma saudade da vovó Oma... de quando eu só me preocupava em comer os doces que ela fazia. Era uma época tão gostosa!

– Sim, minha ama. Também tenho saudades do meu papai. Mas, agora, cabe a nós a tarefa de prosseguir com a tradição de nossas famílias. E, modéstia à parte, nossas receitas são tão deliciosas quanto as de Oma e Kerb, não?

– Sim, claro, Kätzie. Ainda bem que tenho você para me ajudar, meu querido.

Maria Guerta continuava sua conversa com Kätzie, enquanto ia separando diversos ingredientes. Contudo, os ingredientes daquele dia não eram apenas os de seus famosos biscoitos. Junto à farinha, os ovos, o leite, dispostos na antiga mesa de Oma, ela acrescentava pequenos frascos de vidro. Em cada um deles, havia uma etiqueta colorida revelando o que continham. O gato e sua ama estavam na antiga sala secreta, escondida atrás do relógio de pêndulo, onde todo tipo de ingrediente podia ser encontrado nas diversas prateleiras. Também havia livros, pergaminhos, garrafas de bebidas, e mais um monte de quinquilharias. Maria Guerta, a cada indicação de Kätzie, selecionava os itens.

– Amor – ele dizia.

– Aqui – ela respondia, e colocava o frasco respectivo à mesa.

Depois de várias indicações de Kätzie, a mesa estava cheia de ingredientes muito mais que especiais: Amor, Solidariedade, Perfeição...

Para indicar o que ia nesta receita, que era a mais importante já feita por Maria Guerta (e ela sabia que nunca faria outra igual), Kätzie utilizava um pequeno livro escrito à mão. Não era o livro mágico de receitas, era outro, pequenino, quase uma caderneta, e foi a própria Maria quem o escreveu. Este livro, também herdado da avó, era o maior segredo de Oma Guerta. Um segredo muito mais secreto que a sala escondida atrás do relógio de pêndulo, mais secreto que o gato falante Kerb, que o livro de receitas de páginas em branco... Era o segredo do nascimento de Maria Guerta.

O mistério em torno da família Guerta Scheuer Deves se dava exatamente por seus nascimentos mágicos. Não eram como os de humanos comuns, vinham de receitas pessoais elaboradas durante muitos anos. Oma Guerta, por exemplo, ficou quarenta e quatro anos fazendo anotações em seu livrinho, herdado de sua avó, até julgar ter a mais bela receita de sua vida. Os ingredientes eram os mais diversos e, claro, não podiam faltar o amor por doces e por gatos. A preparação da receita durou todo um dia. Em um caldeirão mágico, eram acrescentados os itens, enquanto o fogo alto mantinha a mistura em constante borbulhar. Tudo feito com o imenso amor de Oma. No fim, eis que surgiu o preparo mais especial já feito por ela: um bebê. Assim nasceu Maria Guerta Scheuer Deves, a neta de Oma Guerta, futura responsável em perpetuar a tradição dos deliciosos biscoitos.

E pouco antes de Oma Guerta deixar este mundo, ela revelou esse segredo maior que qualquer outro à neta:

– ... e foi assim que você nasceu, Maria.

Depois de muito conversarem, Oma contou dos últimos mistérios da família à neta, e entregou-lhe o livrinho com a receita de seu nascimento.

– Quando eu me for, as páginas deste livro voltarão a ficar em branco – disse, Oma. – Nele, você escreverá sua receita mais importante, que determinará a permanência de nossa tradição. Assim como você veio a mim, deste livro também virá sua netinha. Portanto, trate-o com muito zelo e amor. Faça todas as anotações necessárias, não importa que durem anos, você saberá quando a receita estiver pronta.

Esse momento, enfim, havia chegado. Maria Guerta preparava sua própria receita especial. As páginas do livrinho, que haviam ficado em branco, eram agora preenchidas pela letra cuidadosa de Maria, e Kätzie lia-as com empolgação. Assim como a receita de Oma, na de Maria Guerta também foram inclusos os indispensáveis ingredientes Amor por doces e Amor por gatos.

– Pronto, minha ama. Não falta mais nada – disse o felino, enquanto fechava o livrinho.

– Agora, meu querido Kätzie, vamos ao preparo! – exclamou Maria Guerta, com um sorriso gentil.

Os dois se dirigiram ao caldeirão mágico, já com o fogo aceso. Aos poucos, Maria Guerta adicionava os ingredientes. Mexendo constantemente e sempre observada por seu assistente, ela fazia tudo com muita delicadeza e dedicação. De toda aquela mistura, subia uma fumaça brilhante, quase como uma constelação, que maravilhava os olhos atentos de Kätzie.

Ao fim do dia, Maria Guerta aparentava estar muito cansada, mas seu sorriso satisfeito permanecia.

– Prepare-se, Kätzie. Já está quase no ponto para você pronunciar suas palavras mágicas.

O gato já empunhava sua colher de pau – que utilizava como uma espécie de varinha de condão –, quando percebeu um barulho estranho.

– Ouviu isso, ama? – perguntou.

– Não ouvi nada.

Meio desconfiado, Kätzie aproximou-se do caldeirão. Levantou a colher, já preparado para fazer sua mágica, quando escutou um ruído agudo, parecendo vir de um bicho pequeno. Viu, então, numa das prateleiras acima do caldeirão, um ratinho cinza roendo a tampa de um frasco com chocolate. Maria Guerta também viu o rato, mas, antes que fizesse qualquer coisa, Kätzie deu um salto habilidoso na beira do caldeirão e, em seguida, pulou na prateleira, em direção ao roedor.

– Ah! – exclamou Maria Guerta. – Cuidado Kätzie!

A aterrissagem dele foi um tanto desastrosa. Além de não pegar o rato, acertou o frasco de chocolate com sua colher, que ainda trazia na pata.

– Não! – berrou, em desespero, Maria Guerta. Ela tentou amparar a queda do frasco, mas a tampa soltou e todo o conteúdo caiu no caldeirão. – Kätziiiiiiiieee!!!

Apesar do grito, o gato parecia não ouvir sua ama. E só o que fazia era correr e saltar de prateleira em prateleira atrás do rato intruso, que corria veloz e camuflava-se atrás das especiarias. A cada tentativa de Kätzie de abocanhar o ratinho, era um novo ingrediente que caía no caldeirão. Em certa altura, atingiu uma prateleira mais alta onde ficavam antiguíssimos livros de terror e suspense. Vários deles vieram abaixo, alguns para o chão, outros segurados por Maria Guerta, e outros, inevitavelmente, dentro do caldeirão. Um deles mostrava um menino bruxo em cima de uma vassoura.

– Kätziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiieee!!!!!! – gritava em desespero Maria Guerta. – Pare com isso, seu gato arruaceiro! Vamos ter que refazer toda a receita!

Mas, o gato parecia surdo. Só tinha ouvidos e olhos para sua caça.

– Maldito rato, eu te pego! – exclamava Kätzie.

Num movimento mais brusco e arriscado, saltou em direção ao roedor tentando acertá-lo com sua colher. O resultado foi drástico. Estourou uma garrafa de vinho que, por sorte, não caiu no caldeirão, contudo, algumas gotinhas foram parar lá dentro. A pancada foi tão violenta que sacolejou toda a prateleira. Com o tremor, alguns pergaminhos começaram a rolar e cair. Eram antigos e raros estudos lingüísticos. Alguns passaram a fazer parte da receita. Maria Guerta estava furiosa.

– Kätziiiiiiie, eu te mato! Você está acabando com tudo!

Desta vez, ele pareceu ouvir. E, no instante em que deu atenção à ama, deixou sua caça fugir de vista. Quando percebeu, notou o ratinho de frente ao caldeirão. “Se não te pego por bem, pego por mal... Quero ver você resistir à minha magia”, pensou. Kätzie estava decidido a acabar com o rato usando sua mágica. Seria um último movimento desesperado.

– Kätzie, desce já daí! – disse, imperativa, Maria Guerta.

Mas ele a ignorou. Levantou sua colher mágica, preparando-se para o golpe final, e saltou, determinado. Maria Guerta gritou de ódio, e essa foi a condenação de Kätzie, já que o grito o desconcentrou. Suas palavras mágicas foram pronunciadas com vigor:

Wunderbaressen gegessen! – bradou duas vezes. E, junto às palavras, também desferiu duas colheradas. Errou o alvo: os golpes atingiram o caldeirão.

– Nãããooo!!! – desesperou-se Maria Guerta.

O desastre foi ainda maior, pois Kätzie caiu com o rabo nas chamas. Só aí esqueceu o roedor, que já havia sumido, e começou a correr desesperado, pedindo socorro à ama.

Maria Guerta logo despejou uma bacia de água no gato, que desabou, exausto e ofegante.

­– Olha aí no que é que dá, seu gato maluco! – esbravejou ela. – Sua sorte é eu que eu te amo, seu sarnento.

Quando voltou ao caldeirão, Maria Guerta teve uma surpresa. Daquela fumaça brilhante, surgiu uma outra, dourada. Rápida, ela desapareceu, deixando apenas um aroma agradável no ar. As palavras mágicas de Kätzie não atingiram o rato, contudo, surtiram efeito sobre a receita que preparavam. No fundo do caldeirão, um bebê lindo repousava, indiferente a toda aquela bagunça. Era a netinha de Maria, Maristela Guerta Scheuer Deves, que acabara de nascer.



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Maristela,

Que este e todos os outros natais e fins de ano sejam repletos de realizações pra ti e toda sua família!

Muita força nos caminhos literários! E que continuemos sempre juntos em nossas lutas escritas.

Um grande abraço do amigo Carlinhos!

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