segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

HOMUS PARAFUSUS, por Sam


 Seis e quarenta e cinco da manhã. Chove. O céu cinzento esconde as últimas estrelas mortas. O café mormente sobre a mesa fria, alguns biscoitos deixados no pote dentro do armário. Sopra as formigas esfomeadas e come. Abre a porta. O zéfiro cortante alisa a pele, despenteia o cabelo. Acende o cigarro esperando que a chuva passe. Pronto, ele se vai, mas a chuva não passa.


Conversações sob um céu tenebroso

_Sabe o que mais me assusta, Dário? A insustentabilidade das coisas. Nada é permanente, tudo é transitório, mutável, inconsistente. O jeito que as pessoas correm, de um lado ao outro, como formigas elétricas me assusta. Não há ao que se apegar por mais de quinze minutos. A busca pelo novo. Sempre uma novidade surgindo sob holofotes impermeáveis. E os loucos gritando: Mais! Mais!

_Você está bem, Rudá?

_Não entendeu nada não é? Você acha que consigo viver assim por quanto tempo? Eu não consigo respirar! Até onde vai isso tudo? Hã?! Me diga! Vamos! Nós vivemos nesse cubículo miserável, mentindo e mentindo e você não dá a mínima! Vamos todos para o inferno!

_Olhe aqui seu doido, esse é o único trabalho que temos, portanto deveria estar grato e calado!



 Levanta-se, abandona sua mesa e corre para a janela. Acende o segundo cigarro e toma outro café. Seu nome é Rudá. Seu trabalho: Consultor de Seguro. Quanto tempo? Quatorze anos.


O Contrato

_Bom dia senhora Flores, quem fala é o senhor Rudá, seu consultor de seguro. Tudo bem com a senhora? Que bom. Estou ótimo, obrigado. Olha, recebemos o cadastro e a ficha de sinistro da senhora. Temos tudo notificado sobre o incidente, porém, infelizmente a seguradora não poderá cobrir os danos. Não, não...  Não foi erro de preenchimento. Estava tudo certo. O problema é que a apólice de seu seguro não cobre aquele tipo de dano específico. Eu sei. Entendo que a senhora vêm pagando há cinco anos, senhora Flores. Compreendo. Ok. Eu sei que a apólice assegura a casa da senhora contra queda de raios, mas a última cláusula alega que a casa do segurado tem que ter um para raios. Foi esse pequeno detalhe... Entendo. Claro. Sei que a senhora confiou em nós... Sim. Não. São as normas, senhora Flores! Eu sinto muito, senhora Flores.

E desligou.


Onze e quarenta e nove da mesma manhã nebulosa. Desce para a área de fumantes. Foram cento e vinte duas ligações. Todas sobre reclamações de apólices com vistorias negadas. Treze casas incendiadas, vinte acidentes passivos, nove furtos, quatro explosões, dois acidentados e um morto.


_O que vai fazer depois do
trampo, Rudá? Os caras do cadastro vão para aquele bar que abriu semana passada, afim?

_Não, obrigado. Não
afim. Vou pra casa.

_Cara, você precisa aproveitar melhor sua vida a vida e parar com essas reflexões doentias. Não há nada que você possa fazer pra mudar isso. O sistema é bruto! Não tempo pra lamentações. Para de bobagem e me escuta. (Sempre acontece assim, pessoas começam a dizer coisas sem nenhum significado do diálogo anterior) O que você está buscando? Você acha que vamos durar pra sempre? Não! Isso aqui é transitório, cara! Vai acabar e se tu não aproveitar, logo vai virar pó, como fumaça de escapamento! Até a Bíblia diz isso, olha aqui a sorte do dia: "Anda, come teu pão com alegria, e bebe contente teu vinho, porque Deus se agrada de tuas obras. Usa sempre vestes brancas, e não falte o óleo perfumado sobre tua cabeça! Goza tua vida." Então, fica tranquilo cara! O que te aquieta?

_Nada. Nada. Obrigado pela dica, Dário.


E se vai.

 

Cinco e quarenta e seis da tarde. Dentro do ônibus o velho pregador está a bradar:


_"Ilusão! Ilusão! Tudo é pura ilusão! Que vantagem o homem tira de seu trabalho com quem se fadiga dia após dia?! Uma geração vai outra geração vem e a terra permanece do mesmo jeito. O sol se levanta, o sol se deita, dirigindo-se para o sul, voltando para o norte. Todos os rios voltam para o mar, contudo o mar não transborda, para onde vão os rios então? Tudo é penoso, difícil de explicar. A vista não se cansa de ver, nem os ouvidos de ouvir; o que foi será, o que aconteceu, acontecerá novamente! Não há nada novo debaixo do sol!”


Rudá desce do ônibus e volta para a casa mas a chuva não para.


____________________________

Texto em parêntese extraído do livro de Eclesiastes.



*Um micro conto para elogiar a loucura de nossos dias. Meu amigo secreto é o Caio Rudá.

2 comentários:

  1. A parte do contato telefônico com uma cliente me fez lembrar da cena entre o Sr. Incrível com uma velhinha, onde ele a ajudava a "burlar" o sistema de negação de prêmios. (desenho da disney, Os Incríveis)

    ResponderExcluir
  2. Beleza de conto. Bem denso... gostei.

    ResponderExcluir