sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Conspiração

“Pode trazer o réu”

E na seqüência dessas palavras as pesadas portas de madeira escura, com detalhes que denunciavam o barroco, se abriram, passando pelos umbrais aquele sujeito cujo destino estava para ser definido pelo que fosse deliberado dentro das quatro paredes do imenso salão azul celeste.

Talvez não houvesse motivo para tanto, mas Léo aparentava uma apreensão maior do que lhe era de costume. Ao longo de boa parte de sua carreira, ele enfrentou vários processos. Escritor ousado, agudo em suas críticas, nunca se intimidou com os riscos da prisão, nem com os impactos de suas obras na sociedade e mesmo as ameaças de morte. Naquele dia, era muito diferente e ele o sabia. Não tinha conhecimento das regras do tribunal. E mesmo que fosse condenado, ou de alguma maneira a sentença lhe fosse desfavorável, como já lhe sucedera antes, dessa vez ele não poderia conformar-se com a metáfora de “o que vale é a justiça divina” para os recursos com os quais seu advogado poderia entrar para recorrer da sentença, por duas razões básicas: não havia meios de recorrer, e, deste deriva o primeiro, tratava-se da própria justiça dos céus.

Se sua vida fosse uma obra de ficção por certo nunca poderia ser um conto, não tanto pela falta de unidade dramática ou brevidade, mas porque tudo que construíra em vida até uma fatídica noite de agosto indicava o desfecho trágico de seu enredo biográfico, enfim sem surpresas.

Não digo que sua morte foi um evento polêmico porque, em termos mais apropriados, entendemo-la como algo mais amplo, um processo como a vida, ambos em perfeito antagonismo. Mas, sem dúvidas, o último episódio da vida de Léo não destoou aos demais, causando alvoroço e grande repercussão em todo o país.

Fora encontrado morto pelo seu advogado no apartamento onde residia, embora o porteiro do prédio contestasse para si a descoberta do cadáver. Fato tal que foi matéria de muito debate nesses programas vespertinos de fofoca. Por semanas, apresentadores e seus não menos desocupados telespectadores tentaram solucionar esse grande mistério, que para eles havia sobrepujado outras questões acerca da morte de Léo. A verdade é que além desses debates inúteis, pouco se especulou sobre a causa mortis.

A investigação apontou logo a primeira hipótese como sendo a de suicídio. Era sabido que Léo estava em franca decadência. Seu último livro lançado, a despeito do sucesso de vendas, alavancadas pela febre das anteriores, foi um fracasso absoluto de aceitação. Não que suas críticas tivessem perdido coesão ou a sagacidade marcante; pelo contrário, a derradeira obra foi, e nisso há unanimidade, de uma acidez cujo PH não cabe na escala convencional. Seu grande pecado foi ter errado no objeto alvo da corrosão. Escolhido um dos pilares da sociedade moderna, ele não encontrou apoio. Todos lhe deram as costas, exceto alguns pequenos grupos que, isolados, não conseguiam fazer oposição à poderosa massa em protesto contra ele.

No âmbito pessoal, sua vida também tornara-se um inferno. A esposa, a quem as ameaças de morte começaram a abranger, pediu o divórcio quando Léo recusou-se a sair do país. Com sua ex-esposa, viu partir metade de suas riquezas, a outra indo-se aos poucos com todas as indenizações que fora obrigado a pagar. Ao cabo de pouco mais de seis meses, pouco lhe sobrou da fortuna e prestígio, de modo que, combinados os dois, admite-se um funcionário público de classe D tê-los em maior quantidade.

Mas tal idéia foi logo abandonada pelos investigadores. Embora tenham sido encontradas garrafas de whysky genuinamente escocês abertas e já consumidas, ficou provado que Léo não havia experimentado uma gota da bebida. A polícia então passou a aceitar a hipótese de homicídio. Lembro-me de um investigador em entrevista para a TV afirmando estarem em busca de um assassino supostamente amador, por tentar forjar um coma alcoólico, não tendo a vítima ingerido nada de álcool. Eu nunca me vendi a esses achismos de nossa polícia e sempre mantive a opinião de que tratava-se de um homicida inteligente, o suficiente para deixar falsas pistas a fim de prejudicar o trabalho da polícia, que já em condições favoráveis não é satisfatório. Ao final de tudo, muito pouco se esclareceu sobre o caso e a verdade da morte permaneceu um grande mistério.

E, diria sem medo de represália, também a justiça celeste não é das mais eficientes. Aliás, todo o Estado divino apresenta sérias falhas graves de estrutura burocrática. Em morte, o primeiro passo do novo cidadão é registrar-se, obtendo um documento de identificação provisório, válido até o julgamento, quando se define se ele sobe ou desce. É esse estágio que o vulgo conhece como purgatório. De fato, é nesse momento que se começa a pagar metade dos pecados, com o enfrentamento da lentidão e mau humor dos anjos das repartições públicas. Com um serviço de péssima eficiência, milhares de novos ex-terrenos vão se acumulando em extensas filas por todo o Reino Celeste.

Voltemos, então, ao momento em que adentrava o salão Léo, acompanhado por dois arcanjos, e o desespero lhe ia tomando conta. Vá lá saber o que se passava naquela cabeça. Mas eu apostaria num híbrido de confusão e medo. Sim, ele temia e não caio em inferências, pois ele suava – eram visíveis as gotas de suor que escorriam da face. Ele tremia, andava desconcertado, descompassado, até que lhe ordenaram sentar-se.

Ajeitado numa cadeira de mesma madeira que as portas pelas quais tinha acabado de passar, foi assustado que ouviu:

“O réu: Léo Niti de Matos, 34 anos de vida terrena, hoje enfrenta o maior dos seus desafios, o de passar pelas acusações na Corte Suprema do Reino dos Céus e Inferno de Baixo.”

Logo em seguida, um sujeito ergueu-se e, preocupado, solicitou uma pequena pausa ao Senhor. Soube-se que ele era promotor do tribunal quando ele e os demais colegas se reuniram improvisadamente ali mesmo no salão, indo algum deles, depois de alguns minutos, comunicar algo ao Senhor.

Curiosamente, aconteceu algo cuja causa, embora não possa provar, estava diretamente ligada à diminuta assembléia que se estabelecera há pouco: o tribunal se desfez. A acusação alegou não ter coletado provas suficientes para poder seguir em frente, e como isso devia ter sido feito durante a vida do réu, não haveria maneira de prosseguir o julgamento. O Senhor afirmou ainda que, em casos como esses, que não eram raros, por sinal, nada podia ser feito que não permitir que o indivíduo obtivesse acesso integral ao condado do Céu, afinal a acusação não tinha provas para mandá-lo para o vizinho de Baixo.

A cara de Léo no instante de tal anúncio denunciava uma felicidade extrema. Salvo em última hora, nunca a sorte lhe prestara tamanho favor. Dentre inúmeros pensamentos que infestavam sua mente àquele momento, um que nunca lhe ocorreria era o da verdadeira razão pela qual cancelaram sua provável condenação ao condado do Inferno. Afinal, coitado, nunca pensaria em retaliação divina.

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Caro Léo, receba meu presente de Natal atrasado, mas os sinceros votos de um 2009 repletos de planos concretizados, todos eles com a mesma perfeição com que trabalha seus textos.

Grande abraço.

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