sábado, 27 de dezembro de 2008

Fechou - lista completa

DENIS CRUZ tirou marcia
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marcia tirou Joaquim Bispo
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Joaquim Bispo tirou Alian Moroz
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Alian Moroz tirou Giselle Sato
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Giselle Sato tirou Volmar Camargo Junior
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Volmar Camargo Junior tirou Pedro Faria Proença Gomes
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Pedro Faria Proença Gomes tirou Carlos Alberto Barros (CARLINHOS)
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Carlos Alberto Barros (CARLINHOS) tirou Maristela Scheuer Deves
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Maristela Scheuer Deves tirou Guilherme Augusto Rodrigues
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Guilherme Augusto Rodrigues tirou Renan Rossi
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Renan Rossi tirou Maria de Fátima M. C. Santos
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Maria de Fátima M. C. Santos tirou Samuel Peregrino (SAM)
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Samuel Peregrino (SAM) tirou Caio Rudá de Oliveira
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Caio Rudá de Oliveira tirou Léo Borges Gonçalves
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Léo Borges Gonçalves tirou Henry Alfred Bugalho
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Henry Alfred Bugalho tirou DENIS CRUZ

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O CONTADOR DE HISTÓRIAS

Quando criança, Maria Lení adorava ouvir o avô contar histórias. No verão, ela e os primos se sentavam embaixo dos cinamomos, comendo melancia e escutando, maravilhados, ele desfiar suas infindáveis e divertidas narrativas. Ali, sentindo o calor do sol na pele e a brisa suave vinda do rio próximo, ela fechava os olhos e mergulhava num mundo mágico, de formigas que cantavam e dançavam junto com a cigarra em vez de repreenderem-na.

Para a menina, o avô era o maior contador de histórias de todo o mundo. Podia ser uma pessoa comum, um agricultor, mas ela achava que ele teria se dado bem como escritor. Sabia como encadear as palavras. Sabia juntá-las e dar um novo significado. Sabia criar encanto, riso, emoção, magia. Sabia como contar uma história.


Os anos passaram. Maria Lení não tinha mais o avô , mas continuava gostando de uma boa história. Começou a ler muitos livros, depois sites e blogs. Foi descobrindo novos autores, novos ´contadores´. E, um dia, fez uma descoberta: um escritor iniciante com o mesmo nome do avô.

Tinham muitas diferenças, é claro. Enquanto o avô era capricorniano, ele era aquariano. O avô não tinha muito estudo, enquanto ele era acadêmico de Letras. O avô era gaúcho, ele era paulista, mas ambos eram do interior. O avô gostava de histórias clássicas ou de humor, e ele, de literatura gótica. O avô sempre parecera velho para a menina, ele era um jovem de apenas 23 anos.

Curiosa, procurou ler mais sobre esse escritor, e também o que ele escrevia. Descobriu que gostava de Chaplin e de filosofia, de Nietzsche e de heavy metal, do Zorro e de línguas, de leitura e de cinema. Escrevia poesia. Belas palavras, para fazer pensar. Era eclético: escrevia sobre gárgulas e sobre reencontros, terror e amor, destino e coincidência. Ele experimentava. Buscava se aperfeiçoar. Era uma águia, em busca de vôos cada vez mais altos.

Um dia, ele se tornaria um grande escritor. Então, olhando para o autógrafo que com certeza pediria, ela recordaria daquelas histórias que tanto a encantavam na infância. E se perguntaria, mais uma vez, o que tinha naquele nome que dava a quem o possuía o dom de contar belas histórias: Guilherme...

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Amigo Guilherme, feliz Natal um pouco atrasado, e um ótimo 2009! Sucesso, e muitas boas histórias!

Conspiração

“Pode trazer o réu”

E na seqüência dessas palavras as pesadas portas de madeira escura, com detalhes que denunciavam o barroco, se abriram, passando pelos umbrais aquele sujeito cujo destino estava para ser definido pelo que fosse deliberado dentro das quatro paredes do imenso salão azul celeste.

Talvez não houvesse motivo para tanto, mas Léo aparentava uma apreensão maior do que lhe era de costume. Ao longo de boa parte de sua carreira, ele enfrentou vários processos. Escritor ousado, agudo em suas críticas, nunca se intimidou com os riscos da prisão, nem com os impactos de suas obras na sociedade e mesmo as ameaças de morte. Naquele dia, era muito diferente e ele o sabia. Não tinha conhecimento das regras do tribunal. E mesmo que fosse condenado, ou de alguma maneira a sentença lhe fosse desfavorável, como já lhe sucedera antes, dessa vez ele não poderia conformar-se com a metáfora de “o que vale é a justiça divina” para os recursos com os quais seu advogado poderia entrar para recorrer da sentença, por duas razões básicas: não havia meios de recorrer, e, deste deriva o primeiro, tratava-se da própria justiça dos céus.

Se sua vida fosse uma obra de ficção por certo nunca poderia ser um conto, não tanto pela falta de unidade dramática ou brevidade, mas porque tudo que construíra em vida até uma fatídica noite de agosto indicava o desfecho trágico de seu enredo biográfico, enfim sem surpresas.

Não digo que sua morte foi um evento polêmico porque, em termos mais apropriados, entendemo-la como algo mais amplo, um processo como a vida, ambos em perfeito antagonismo. Mas, sem dúvidas, o último episódio da vida de Léo não destoou aos demais, causando alvoroço e grande repercussão em todo o país.

Fora encontrado morto pelo seu advogado no apartamento onde residia, embora o porteiro do prédio contestasse para si a descoberta do cadáver. Fato tal que foi matéria de muito debate nesses programas vespertinos de fofoca. Por semanas, apresentadores e seus não menos desocupados telespectadores tentaram solucionar esse grande mistério, que para eles havia sobrepujado outras questões acerca da morte de Léo. A verdade é que além desses debates inúteis, pouco se especulou sobre a causa mortis.

A investigação apontou logo a primeira hipótese como sendo a de suicídio. Era sabido que Léo estava em franca decadência. Seu último livro lançado, a despeito do sucesso de vendas, alavancadas pela febre das anteriores, foi um fracasso absoluto de aceitação. Não que suas críticas tivessem perdido coesão ou a sagacidade marcante; pelo contrário, a derradeira obra foi, e nisso há unanimidade, de uma acidez cujo PH não cabe na escala convencional. Seu grande pecado foi ter errado no objeto alvo da corrosão. Escolhido um dos pilares da sociedade moderna, ele não encontrou apoio. Todos lhe deram as costas, exceto alguns pequenos grupos que, isolados, não conseguiam fazer oposição à poderosa massa em protesto contra ele.

No âmbito pessoal, sua vida também tornara-se um inferno. A esposa, a quem as ameaças de morte começaram a abranger, pediu o divórcio quando Léo recusou-se a sair do país. Com sua ex-esposa, viu partir metade de suas riquezas, a outra indo-se aos poucos com todas as indenizações que fora obrigado a pagar. Ao cabo de pouco mais de seis meses, pouco lhe sobrou da fortuna e prestígio, de modo que, combinados os dois, admite-se um funcionário público de classe D tê-los em maior quantidade.

Mas tal idéia foi logo abandonada pelos investigadores. Embora tenham sido encontradas garrafas de whysky genuinamente escocês abertas e já consumidas, ficou provado que Léo não havia experimentado uma gota da bebida. A polícia então passou a aceitar a hipótese de homicídio. Lembro-me de um investigador em entrevista para a TV afirmando estarem em busca de um assassino supostamente amador, por tentar forjar um coma alcoólico, não tendo a vítima ingerido nada de álcool. Eu nunca me vendi a esses achismos de nossa polícia e sempre mantive a opinião de que tratava-se de um homicida inteligente, o suficiente para deixar falsas pistas a fim de prejudicar o trabalho da polícia, que já em condições favoráveis não é satisfatório. Ao final de tudo, muito pouco se esclareceu sobre o caso e a verdade da morte permaneceu um grande mistério.

E, diria sem medo de represália, também a justiça celeste não é das mais eficientes. Aliás, todo o Estado divino apresenta sérias falhas graves de estrutura burocrática. Em morte, o primeiro passo do novo cidadão é registrar-se, obtendo um documento de identificação provisório, válido até o julgamento, quando se define se ele sobe ou desce. É esse estágio que o vulgo conhece como purgatório. De fato, é nesse momento que se começa a pagar metade dos pecados, com o enfrentamento da lentidão e mau humor dos anjos das repartições públicas. Com um serviço de péssima eficiência, milhares de novos ex-terrenos vão se acumulando em extensas filas por todo o Reino Celeste.

Voltemos, então, ao momento em que adentrava o salão Léo, acompanhado por dois arcanjos, e o desespero lhe ia tomando conta. Vá lá saber o que se passava naquela cabeça. Mas eu apostaria num híbrido de confusão e medo. Sim, ele temia e não caio em inferências, pois ele suava – eram visíveis as gotas de suor que escorriam da face. Ele tremia, andava desconcertado, descompassado, até que lhe ordenaram sentar-se.

Ajeitado numa cadeira de mesma madeira que as portas pelas quais tinha acabado de passar, foi assustado que ouviu:

“O réu: Léo Niti de Matos, 34 anos de vida terrena, hoje enfrenta o maior dos seus desafios, o de passar pelas acusações na Corte Suprema do Reino dos Céus e Inferno de Baixo.”

Logo em seguida, um sujeito ergueu-se e, preocupado, solicitou uma pequena pausa ao Senhor. Soube-se que ele era promotor do tribunal quando ele e os demais colegas se reuniram improvisadamente ali mesmo no salão, indo algum deles, depois de alguns minutos, comunicar algo ao Senhor.

Curiosamente, aconteceu algo cuja causa, embora não possa provar, estava diretamente ligada à diminuta assembléia que se estabelecera há pouco: o tribunal se desfez. A acusação alegou não ter coletado provas suficientes para poder seguir em frente, e como isso devia ter sido feito durante a vida do réu, não haveria maneira de prosseguir o julgamento. O Senhor afirmou ainda que, em casos como esses, que não eram raros, por sinal, nada podia ser feito que não permitir que o indivíduo obtivesse acesso integral ao condado do Céu, afinal a acusação não tinha provas para mandá-lo para o vizinho de Baixo.

A cara de Léo no instante de tal anúncio denunciava uma felicidade extrema. Salvo em última hora, nunca a sorte lhe prestara tamanho favor. Dentre inúmeros pensamentos que infestavam sua mente àquele momento, um que nunca lhe ocorreria era o da verdadeira razão pela qual cancelaram sua provável condenação ao condado do Inferno. Afinal, coitado, nunca pensaria em retaliação divina.

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Caro Léo, receba meu presente de Natal atrasado, mas os sinceros votos de um 2009 repletos de planos concretizados, todos eles com a mesma perfeição com que trabalha seus textos.

Grande abraço.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

XXXI


A resolução de voltar à América do Sul e o encontro com o astrónomo turco

Embora tivessem acreditado, durante algum tempo, que a vida e o trabalho na quinta os libertava de três calamidades – o aborrecimento, o vício e a necessidade –, o certo é que Cândido, Pangloss, Alian, Cunegundes e os outros não aguentaram muito tempo aquela vida demasiado rural e preferiram arriscar sujeitar-se às sevícias da necessidade, a fim de voltarem a saborear os estímulos do vício urbano e, sobretudo, livrarem-se da assoberbante prevalência do aborrecimento. Venderam a quinta a um fellah que tinha um negócio de hortaliça porta-a-porta, dirigiram-se ao porto de Constantinopla e compraram passagens no cargueiro Payflower que se dirigia a Sacramento. Tencionavam, a partir desse destino, viajar para norte e, quiçá, voltar a encontrar o Eldorado, de grata memória, ou mesmo Curitiba, que as lendas diziam ser ainda mais fabulosa.
A viagem foi longa e Pangloss entretinha-se a perorar sobre os efeitos e as causas no melhor dos mundos possíveis. Dizia que Deus escrevia direito por linhas tortas, pois, se quisesse que eles se transformassem em amáveis agricultores, não lhes tinha inculcado enfado na alma e calos nas mãos. Cândido aprovava e apalpava o interior das ditas. Alian dizia que Deus era uma criação humana e que, portanto, era efeito e não causa. E que o livre arbítrio existia, não por maquinação sub-reptícia de um deus mal assumido, mas pela ausência desse mesmo Deus, fosse bondoso, como o mito cristão gosta de o pintar, ou cruel e vingativo como o do Velho Testamento. Cunegundes, enjoada com os balanços do navio, passava a maior parte do tempo dentro duma nebulosa etílica.
A bordo seguia também um matemático e astrónomo turco que raras vezes se via, porque passava as noites no convés a admirar as estrelas. Certa vez, envolveu-se numa troca de opiniões com Alian e Pangloss.
– A grande demanda da minha vida – dizia ele – é conseguir realizar a quadratura do círculo. Estou convencido que em breve a alcançarei.
– Ah, caro leitor, perdão, amigo – retrucava Alian – temo desiludi-lo, mas tal é impossível. É que Π (Pi) é um número transcendental e como tal não pode ser construído um segmento de recta equivalente, usando somente régua e compasso.
Esta resposta, avançada para o seu tempo, levou a uma longa discussão que seria ocioso transcrever, mas que, duas horas depois, evoluiu para:
– Também hei-de provar que Fermat não tinha razão – arrazoava o turco. – A grande demanda da minha vida é encontrar um expoente diferente de 2 que sirva a equação apresentada por ele.
Pangloss, adiantava-se:
– A harmonia pré-estabelecida não pode ser alterada, sem que o mal apareça. Tudo está bem como está.
E outros cumes de elegante argumentação.
Por fim, aportaram à colónia de Sacramento, às primeiras horas de 26 de Dezembro, onde ninguém os esperava.


***

Votos de continuação de boa viagem, Alian!

O Pergaminho Esquecido


Henry Alfred Bugalho


Kzar parou diante da bifurcação na trilha da montanha e refletiu.

Por doze meses, ele percorreu o mundo em busca do pergaminho esquecido: havia enfrentado bandidos, gigantes, dragões, feiticeiras e necromantes. Organizando as peças deste quebra-cabeça sem fim, tentando encontrar a pista definitiva, que lhe indicasse o paradeiro da relíquia.

O último adversário — um elfo negro — só revelou o que sabia após tortura. Kzar, sempre um nobre combatente, não se reconhecia nos métodos que tinha de utilizar. Para alcançar seu objetivo, tinha de jogar o jogo dos inimigos.

— No cimo da montanha... — o elfo murmurou, enquanto sua vida se esvaía junto ao sangue que jorrava dos membros decepados — É lá que está o que busca.

Mas agora Kzar estava diante dum impasse — a bifurcação na trilha da montanha. Um dos caminhos levava para cima, para o cume, para onde jazia o pergaminho, o outro levava para o vale, para a cidadela, para onde moravam sua família e amigos.

— Doze meses! — Kzar arfava — Doze meses longe dos que amo! Vale a pena tanto esforço por causa dum mero rolo de papel?

Esta era a pergunta que ele se fazia desde o primeiro dia em que partiu em viagem. Não sabia qual era o conteúdo do pergaminho, mas os boatos diziam que quem o possuísse dominaria céus e terra, seria louvado pelas nações, sua fama seria eterna.

— Vale a pena? — Kzar repetiu, e sua voz retornou em ecos pela imensidão. Veio-lhe à mente o rosto da esposa e dos filhos: Lívia faria aniversário em poucas semanas e Kalel já deveria estar aprendendo o manejo do arco com o avô. Recordou-se dos anos que se refugiou nos pastoreio, para escapar de seu destino de guerreiro. Mas não se pode fugir de sua natureza, ele concluiu, e viu mais sangue nestes últimos meses do que em toda sua vida pretérita. Mesmo que eu jamais obtenha o pergaminho, meus feitos serão cantados pelos vates. Derrotei os mais temidos oponentes, pisei nos territórios mais longínquos, vi coisas que outros olhos não sobreviveriam para ver — Basta! — Kzar se decidiu — Voltarei para os meus.

O herói desceu a montanha e chegou à cidadela. Foi saudado com festividades nunca vista antes naquela região.

Kzar retornou à vida pacata, dos dias sem surpresa, mas de afeto e conforto. No entanto, todas as noites, após seus filhos terem ido dormir, após ter amado sua companheira, Kzar subia ao sótão e narrava suas histórias em pergaminhos que seriam encerrados num baú.

Numa destas histórias, ele narrou a decisão diante da bifurcação na montanha, mas, apenas desta vez, ele optou pela trilha do topo e dos perigos que guardavam o pergaminho esquecido, dos monstros que enfrentou lá em cima e da grande glória obtida.

O que Kzar não poderia esperar é que, um dia, durante uma faxina, sua esposa encontraria o manuscrito e, impressionada com a história, a mostraria ao sábio da cidade, que levaria ao Duque, que, por sua vez, ordenaria a impressão e encadernação daquela história em códices.

Kzar jamais havia visto ou conquistado o pergaminho esquecido, mas a história que ele escreveu conquistou os ouvidos e corações de todos os povos e, hoje, ela é até mais conhecida do que a lenda do pergaminho: as aventuras de Kzar são contadas nas praças públicas, para crianças antes de elas irem dormir, nos teatros e nos salões da corte.

A imaginação venceu o pior dos inimigos — a realidade.


Feliz Natal, Denis, e um ótimo Ano-Novo para você e para sua família!

Idade

Eu estava me sentindo muito velho naquele dia. Estava andando desde umas sete horas da manhã, quando vi uma cena curiosa:
Havia um homem sentado na beira da estrada. Do lado dele, uma vitrola sem disco, mas que mesmo assim emitia um som melodioso. Na mão do homem, um bloco de papel. Ele escrevia numa velocidade incrível, mas não parecia se cansar. Cada folha que ele terminava, ele lançava ao vento. Foi então que eu vi que o som que saía da vitrola era visível: Notas agrupadas flutuavam do aparelho musical, e cada folha que voava encontrava algumas dessas notas e fundia-se a elas.
Curioso, apoiei-me em minha bengala, e perguntei para aquele jovem como ele fazia aquilo.
“É questão de querer”, ele me disse.
“A música sai de dentro, ela vem do coração. Você só precisa pensar nas coisas boas da vida. Em livros, em música, em filmes. Pensar na sua namorada, em seus filhos, mesmo que esses ainda não existam no plano físico. Você precisa apenas exercitar a sua mente, até que ela se estique até seu coração, e a música sai. Se você conseguir colocar seus problemas de lado por um tempinho, você vai ver como as coisas fluirão facilmente. Tente”.
Ouvir aquelas palavras sábias de alguém, que naquele momento deveria ter a metade da minha idade, foi realmente inspirador. Ele me cedeu o bloco, e eu fechei os olhos e tentei pensar em tudo o que ele falou. Demorou um tempinho, mas logo tinham palavras minhas flutuando no vento, ao lado das dele e de outros como ele.
Eu o agradeci, e levantei-me restaurado. Vi que o Sol brilhava, e que não precisava mais da bengala.
Lembrei que tinha apenas 19, e mais preocupações do que deveria. E tenho a agradecer a ele, e às palavras dele.


Feliz Natal Carlinhos, tudo de bom para você, sua namorada e sua família.
Abração

O NASCIMENTO DE MARISTELA

por Carlos Alberto Barros




A grande cozinheira observava com amor seu precioso livro de receitas. Na capa, seu nome escrito em letras douradas: Maria Guerta Scheuer Deves. Sim, era um livro muito especial, e nem tanto por ser a fonte mágica de todas suas deliciosas receitas, mas por ser a maior herança deixada por sua avó, Oma Guerta Scheuer Deves.

Preparando-se para a mais importante receita de sua vida, Maria Guerta se recordava de quando era apenas Mariazinha. Parecia fazer tão pouco tempo... Como ela se extasiava com as maravilhosas guloseimas de Oma!

Lembrava-se de quando conheceu Kerb, o gato falante da avó, e como ficou espantada. “E aquelas patinhas na cintura foram demais!”, pensava e ria.

– Lembra quando nos conhecemos, Kätzie? – perguntou ela para seu gatinho assistente.

– E como poderia esquecer, minha ama? Foi um dia muito especial – respondeu Kätzie.

– É, foi sim... Às vezes bate uma saudade da vovó Oma... de quando eu só me preocupava em comer os doces que ela fazia. Era uma época tão gostosa!

– Sim, minha ama. Também tenho saudades do meu papai. Mas, agora, cabe a nós a tarefa de prosseguir com a tradição de nossas famílias. E, modéstia à parte, nossas receitas são tão deliciosas quanto as de Oma e Kerb, não?

– Sim, claro, Kätzie. Ainda bem que tenho você para me ajudar, meu querido.

Maria Guerta continuava sua conversa com Kätzie, enquanto ia separando diversos ingredientes. Contudo, os ingredientes daquele dia não eram apenas os de seus famosos biscoitos. Junto à farinha, os ovos, o leite, dispostos na antiga mesa de Oma, ela acrescentava pequenos frascos de vidro. Em cada um deles, havia uma etiqueta colorida revelando o que continham. O gato e sua ama estavam na antiga sala secreta, escondida atrás do relógio de pêndulo, onde todo tipo de ingrediente podia ser encontrado nas diversas prateleiras. Também havia livros, pergaminhos, garrafas de bebidas, e mais um monte de quinquilharias. Maria Guerta, a cada indicação de Kätzie, selecionava os itens.

– Amor – ele dizia.

– Aqui – ela respondia, e colocava o frasco respectivo à mesa.

Depois de várias indicações de Kätzie, a mesa estava cheia de ingredientes muito mais que especiais: Amor, Solidariedade, Perfeição...

Para indicar o que ia nesta receita, que era a mais importante já feita por Maria Guerta (e ela sabia que nunca faria outra igual), Kätzie utilizava um pequeno livro escrito à mão. Não era o livro mágico de receitas, era outro, pequenino, quase uma caderneta, e foi a própria Maria quem o escreveu. Este livro, também herdado da avó, era o maior segredo de Oma Guerta. Um segredo muito mais secreto que a sala escondida atrás do relógio de pêndulo, mais secreto que o gato falante Kerb, que o livro de receitas de páginas em branco... Era o segredo do nascimento de Maria Guerta.

O mistério em torno da família Guerta Scheuer Deves se dava exatamente por seus nascimentos mágicos. Não eram como os de humanos comuns, vinham de receitas pessoais elaboradas durante muitos anos. Oma Guerta, por exemplo, ficou quarenta e quatro anos fazendo anotações em seu livrinho, herdado de sua avó, até julgar ter a mais bela receita de sua vida. Os ingredientes eram os mais diversos e, claro, não podiam faltar o amor por doces e por gatos. A preparação da receita durou todo um dia. Em um caldeirão mágico, eram acrescentados os itens, enquanto o fogo alto mantinha a mistura em constante borbulhar. Tudo feito com o imenso amor de Oma. No fim, eis que surgiu o preparo mais especial já feito por ela: um bebê. Assim nasceu Maria Guerta Scheuer Deves, a neta de Oma Guerta, futura responsável em perpetuar a tradição dos deliciosos biscoitos.

E pouco antes de Oma Guerta deixar este mundo, ela revelou esse segredo maior que qualquer outro à neta:

– ... e foi assim que você nasceu, Maria.

Depois de muito conversarem, Oma contou dos últimos mistérios da família à neta, e entregou-lhe o livrinho com a receita de seu nascimento.

– Quando eu me for, as páginas deste livro voltarão a ficar em branco – disse, Oma. – Nele, você escreverá sua receita mais importante, que determinará a permanência de nossa tradição. Assim como você veio a mim, deste livro também virá sua netinha. Portanto, trate-o com muito zelo e amor. Faça todas as anotações necessárias, não importa que durem anos, você saberá quando a receita estiver pronta.

Esse momento, enfim, havia chegado. Maria Guerta preparava sua própria receita especial. As páginas do livrinho, que haviam ficado em branco, eram agora preenchidas pela letra cuidadosa de Maria, e Kätzie lia-as com empolgação. Assim como a receita de Oma, na de Maria Guerta também foram inclusos os indispensáveis ingredientes Amor por doces e Amor por gatos.

– Pronto, minha ama. Não falta mais nada – disse o felino, enquanto fechava o livrinho.

– Agora, meu querido Kätzie, vamos ao preparo! – exclamou Maria Guerta, com um sorriso gentil.

Os dois se dirigiram ao caldeirão mágico, já com o fogo aceso. Aos poucos, Maria Guerta adicionava os ingredientes. Mexendo constantemente e sempre observada por seu assistente, ela fazia tudo com muita delicadeza e dedicação. De toda aquela mistura, subia uma fumaça brilhante, quase como uma constelação, que maravilhava os olhos atentos de Kätzie.

Ao fim do dia, Maria Guerta aparentava estar muito cansada, mas seu sorriso satisfeito permanecia.

– Prepare-se, Kätzie. Já está quase no ponto para você pronunciar suas palavras mágicas.

O gato já empunhava sua colher de pau – que utilizava como uma espécie de varinha de condão –, quando percebeu um barulho estranho.

– Ouviu isso, ama? – perguntou.

– Não ouvi nada.

Meio desconfiado, Kätzie aproximou-se do caldeirão. Levantou a colher, já preparado para fazer sua mágica, quando escutou um ruído agudo, parecendo vir de um bicho pequeno. Viu, então, numa das prateleiras acima do caldeirão, um ratinho cinza roendo a tampa de um frasco com chocolate. Maria Guerta também viu o rato, mas, antes que fizesse qualquer coisa, Kätzie deu um salto habilidoso na beira do caldeirão e, em seguida, pulou na prateleira, em direção ao roedor.

– Ah! – exclamou Maria Guerta. – Cuidado Kätzie!

A aterrissagem dele foi um tanto desastrosa. Além de não pegar o rato, acertou o frasco de chocolate com sua colher, que ainda trazia na pata.

– Não! – berrou, em desespero, Maria Guerta. Ela tentou amparar a queda do frasco, mas a tampa soltou e todo o conteúdo caiu no caldeirão. – Kätziiiiiiiieee!!!

Apesar do grito, o gato parecia não ouvir sua ama. E só o que fazia era correr e saltar de prateleira em prateleira atrás do rato intruso, que corria veloz e camuflava-se atrás das especiarias. A cada tentativa de Kätzie de abocanhar o ratinho, era um novo ingrediente que caía no caldeirão. Em certa altura, atingiu uma prateleira mais alta onde ficavam antiguíssimos livros de terror e suspense. Vários deles vieram abaixo, alguns para o chão, outros segurados por Maria Guerta, e outros, inevitavelmente, dentro do caldeirão. Um deles mostrava um menino bruxo em cima de uma vassoura.

– Kätziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiieee!!!!!! – gritava em desespero Maria Guerta. – Pare com isso, seu gato arruaceiro! Vamos ter que refazer toda a receita!

Mas, o gato parecia surdo. Só tinha ouvidos e olhos para sua caça.

– Maldito rato, eu te pego! – exclamava Kätzie.

Num movimento mais brusco e arriscado, saltou em direção ao roedor tentando acertá-lo com sua colher. O resultado foi drástico. Estourou uma garrafa de vinho que, por sorte, não caiu no caldeirão, contudo, algumas gotinhas foram parar lá dentro. A pancada foi tão violenta que sacolejou toda a prateleira. Com o tremor, alguns pergaminhos começaram a rolar e cair. Eram antigos e raros estudos lingüísticos. Alguns passaram a fazer parte da receita. Maria Guerta estava furiosa.

– Kätziiiiiiie, eu te mato! Você está acabando com tudo!

Desta vez, ele pareceu ouvir. E, no instante em que deu atenção à ama, deixou sua caça fugir de vista. Quando percebeu, notou o ratinho de frente ao caldeirão. “Se não te pego por bem, pego por mal... Quero ver você resistir à minha magia”, pensou. Kätzie estava decidido a acabar com o rato usando sua mágica. Seria um último movimento desesperado.

– Kätzie, desce já daí! – disse, imperativa, Maria Guerta.

Mas ele a ignorou. Levantou sua colher mágica, preparando-se para o golpe final, e saltou, determinado. Maria Guerta gritou de ódio, e essa foi a condenação de Kätzie, já que o grito o desconcentrou. Suas palavras mágicas foram pronunciadas com vigor:

Wunderbaressen gegessen! – bradou duas vezes. E, junto às palavras, também desferiu duas colheradas. Errou o alvo: os golpes atingiram o caldeirão.

– Nãããooo!!! – desesperou-se Maria Guerta.

O desastre foi ainda maior, pois Kätzie caiu com o rabo nas chamas. Só aí esqueceu o roedor, que já havia sumido, e começou a correr desesperado, pedindo socorro à ama.

Maria Guerta logo despejou uma bacia de água no gato, que desabou, exausto e ofegante.

­– Olha aí no que é que dá, seu gato maluco! – esbravejou ela. – Sua sorte é eu que eu te amo, seu sarnento.

Quando voltou ao caldeirão, Maria Guerta teve uma surpresa. Daquela fumaça brilhante, surgiu uma outra, dourada. Rápida, ela desapareceu, deixando apenas um aroma agradável no ar. As palavras mágicas de Kätzie não atingiram o rato, contudo, surtiram efeito sobre a receita que preparavam. No fundo do caldeirão, um bebê lindo repousava, indiferente a toda aquela bagunça. Era a netinha de Maria, Maristela Guerta Scheuer Deves, que acabara de nascer.



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Maristela,

Que este e todos os outros natais e fins de ano sejam repletos de realizações pra ti e toda sua família!

Muita força nos caminhos literários! E que continuemos sempre juntos em nossas lutas escritas.

Um grande abraço do amigo Carlinhos!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Quinhões


Está na forma como a gravidade em nós despeja limitações. Primeiro, o não- decolar. Depois, o não-desejo. Inicial momento, ainda crianças, coisas a Natureza proporciona e as vemos sem de nada duvidar. São tantos surpresas, tantas possibilidades... Mas então vem a gravidade e nos limita as ações. Percebemos, não somos capazes de tudo. O mundo é um lugar de escolhas e opções... tão restritas. Eis que passam-se os anos, driblam-se os problemas, esconde-se o que é diferente e enfoca-se no que é igual, até que, numa bela manhã de domingo, a gravidade vem para nos limitar outra vez. Ela ataca, desconstrói e impossibilita alguns de nossos melhores sonhos. Uma vez Aquele Sonho limitado, nada mais há que restringir.

Maria de Fátima ainda sonha.

Enquanto o oxigênio percorrer seu corpo trazendo vida e morte, ela o fará. Sim, todos os dias ela inspira. E todos os dias expira. E ouve enquanto expira. E enxerga enquanto inspira. E vê as belezas da Ponta da Piedade. Sim, Piedade. Ela vê Sua falta nas orientações humanas, se envergonha com elas... como é de se esperar. E sente as vibrações que emanam do mar, que tanto ama.

Percebe as crianças brincarem perto das falésias. Mal sabem as coisas que as esperam ao virar da esquina da vida. Maria de Fátima viu, vê, verá... tantas coisas... que é capaz de nem se lembrar de todas. Eu já não me lembro.

Golfinhos e gatos em Algarve.

As partes que nos cabem.

A bola das crianças jogada para longe. Pelo vento. Para a água. No mar, indo e subindo... O movimentar das ondas. A menor das crianças. Roupinhas vermelhas. Todo brinquedo tem seu resgate. Braçadas sem jeito. Perninhas. Mais longe. E mais longe. Tão longe. Desespero.

Quão longe?

E a gravidade decepa alguns de nossos sonhos, os leva para si.
Areia branca. Chuva e luar. A vida se constitui por marés.
Já não basta evitar as baixas?

O corpinho afogado volta pelas falésias. Piedade divina que os corpos sejam devolvidos para as suas mães! Mas vida lá não existe. Já não persiste. E como ter a certeza que ali um dia existiu? Que a vida é verdade, afinal? Deixem que nossas certezas nos inundem, até o momento em que com elas nos afogaremos!

E então terá acabado.

Maria de Fátima se levanta. Em Lagos, o socorro e a noite chegaram. Conforta-se a família e amigos da vítima. Conforta-se o acaso. Conforma-se com os quinhões nos quais se concentra esta trilha.

* * *

Assim são nossos sonhos: garotas, garotos e brinquedos – coisas pequenas.

Estimada, Maria. Que seu ano seja repleto de mares e marés.
Porque a vida não teria graça se fosse fácil demais.
Simples demais, previsível demais.
Feliz demais.

É bom que vícios nos adquiram e nos abandonem. É bom que alguns sonhos morram na praia, para que outros sobrevivam a estes – maiores e mais fortes.

Desejo que viva bem, sofra bem e seja mais ou menos feliz, sempre tendo algum controle para evitar os exageros, porque se alguém é muito realizado é porque na verdade não é realizado porra nenhuma!

Bom natal e boas festas, esses são outros desejos do seu amigo de Oficina, Renan Rossi.
O Vôo 309
Alian Moroz


Mal chegou a Paris e já estava com as malas prontas para mais uma empreitada. O vôo saia às nove, mas tinha certeza que a decolagem atrasaria. Em Pparis sempre atrasava.
O celular toca. Precisava mudar o toque da música do Bee Gees.

– Oi! Silvana? Eu sei menina, eu sei . Já estou pronta. Você vai também? O carro de serviço estragou? Vamos de táxi. Passa aqui e vamos juntas. Xaus... beijo.


Uma garoa deixava a noite mais fria , entretanto a cidade Luz ficava mais bela. Giselle gostava da metrópoles francesa. Lembrou com carinho das noites vividas junto a Cassiano, um italiano legítimo, e não aquela falsificação malograda; o Ferreira,

O táxi espera pouco até Giselle descer e embarcar. Silvana, a amiga de longa data, parece ansiosa.
– Vamos logo, Gi.
–Calma, Sil, você sabe muito bem que em Paris sempre atrasa.
Silvana arranja uma feição irônica.
–Entra logo que eu tenho um babado para te contar.
Giselle, a nissei de pernas grossas e pele amorenada, espalha o sobrolho.
– Ah, Sil, você e suas fofocas.
– Não quer ouvir tudo bem, não conto.
O motorista do bólido dá uma olhadinha pelo retrovisor como que pedindo: “conta logo sacre pluir”.

–Adivinha quem vai pilotar o vôo das Nove?
Giselle pesa o olhar.
– Por favor, não me diga que é o Ferreira...
– Está bem, eu não digo...
–Ai, meus Cavaleiros Templários...o Ferreira não!! – indaga Giselle batendo a mão três vezes no vidro do automóvel.

Naquela noite o Big Ben parou, a Torre de Pisa desentortou e um vôo de Paris não atrasou. Justamente o das Nove.

O encontro com o Capitão Ferreira e a Comissária de bordo Giselle foi frio. Olhares mudos e gestos vazios. Contudo a tensão estava no ar, literalmente.

– Você viu o jeito que ele te olhou, Gi?
– Não.
– Como não?
– Eu não olhei para ele, por isso não vi como ele me olhou, Silvana. Agora pare de fofoca e vá cuidar da poltrona 56-B. Um gordo vomitou a janta.
– Eca, Gi. Por que não manda a Rafaela?
– A Rafaela está ocupada. Vai logo.
– Sacana, não vou te contar quem está aqui, na Segunda Classe.
Gi faz uma reza em silêncio. A amiga parecia o jornal das oito. Só trazia notícias ruins.
– Desembucha. – ordena Giselle.
– E o gordo? – rebate Silvana.
–Rafaela! Venha um minuto aqui, por favor...

Gi foi pessoalmente à Segunda Classe. Tenório não se atreveria a vir atrás dela novamente. Não depois do episódio da polícia.
Da ponta do corredor central ela avista-o.
Se aproxima enquanto lembranças permeiam sua visão. Tenório, policial aposentado. Grandes olhos profundos, calvo, porém uma calvície do tipo intelectual. O conhecera numa formatura. Acabou tendo um caso com ele, duradouro por longos três anos. No começo, uma felicidade. No interlúdio uma realidade. No fim, uma temeridade.

Tenório era bom , mas tinha tendência para dramaticidades. Conhecera homens com grande tendência a serem cornos, mas Tenório era uma assumidade papal. A última vez que o vira, fora na despedida de Fernandinho. O garoto iria viajar e os amigos lhe deram uma festa. Tenório mandou plantar um papelote de cocaína no apartamento do menino. O besta gostava de inventar amantes para ela. Só não sabia a idade de Fernandinho. Uma criança de seis anos era muito jovem para ela. Foi uma confusão.
–Tenório! – indaga Giselle.
–Gi ! Que surpresa.
–Não me venha com essa conversa mole que eu te conheço. Não sabia de sua estadia em Paris.
– Onde mais poderia lhe achar, minha querida?
–Que tal no Inferno? Pois é isso em que se transformou minha vida depois de você. – responde ela com voz ríspida.

Ele desabotoa um botão do paletó clavier e sorri.
– Vim lhe fazer uma proposta, meu amor.
Giselle já escutara aquele tom de voz antes.
– O que você aprontou, Tenório.
– Que mania de me rebaixar, Gi. Não aprontei nada...ainda...
Ele abre o paletó e deixa-a ver um artefato parecendo um detonador. Ela se abaixa e sussurra no ouvido do ex.
– Tenório,.isso, por um acaso, não é uma bomba....
–É sim. E vou detoná-la se por um acaso não casar comigo, agora.
A cor foge de seu rosto amorenado.
–Agora?
–Sim. Está vendo esse senhor ao meu lado? É um juiz de paz. Ele vai nos casar.
– Mas...
– Ah , ele não tem medo de morrer. É depressivo, iria pular do décimo-sexto andar de um edifício. Convenci a me ajudar.

Uma voz chama por Giselle, vinda do começo do corredor. Era Silvana.
– Gi! O Capitão Ferreira quer lhe falar. Urgente.
Tenório se espalda quando ouve o nome do rival.
– É o Ferreira quem está pilotando esta geringonça? Agora é que vou mandar tudo para os ares mesmo.
– Tenório, calma. Já estamos nos ares. Por favor. não faça nenhuma besteira. Vou lá conversar com o Ferreira a já volto, certo?
– Você tem cinco minutos, senão eu vou explodir todo mundo aqui..
O juiz suicida ri com o canto da boca.

Giselle se apressa ao chamado. O avião dá uma balançada e ela torce o tornozelo quando o salto do sapato quebra. Segura-se em uma poltrona. O homem gordo olha para ela. Ele está amarelo.
Chegando na cabine, bate antes de entrar. Lembra dos tempos passados com Ferreira. Ele era mais velho que ela. Um italiano de ascendência portuguesa. Era baixo e com cabelos encaracolados, como suas idéias. Giselle tinha o “dedo podre” para homens.
Ela nunca fora ciumenta. Traição é um nome muito forte para denominar uma pulada de cerca. Ela sabia que Ferreira , com um queixo largo e covinhas no rosto, atraía mulheres. Giselle não se importava com isso. Só quando pegou Ferreira na sua cama com três travestis brasileiros é que ela perdeu a compostura. Ficou furiosa. Isso já era demais.

A porta da cabine abre. Ela vê rostos assustados. O co-piloto está suando e sangra na cabeça.
– Ele ficou louco Gi! – balbucia o mesmo.
– Cala a boca seu merda! – grita Ferreira.– Pensa que io não sei de suas escapadas com os mesmos travecos! Porca miséria. Tuto puto!.
– Ferreira, o que significa isso? – pergunta Giselle.
–None agüento mai viver sem ti , mia querida. Te quero comigo. Juro-te amore eterno.
– Ferreira, não estou entendendo ainda.
Ele dá uma guinada no manche, fazendo a aeronave corcovear.
– Mai vai entender alhora. Ou tu volta pra mim ou jogo esta porcaria aqui de cima. Morremo tuto. Ou volta pra mim ou jogo este avione no chão!

Silvana que estava por perto arregala os olhos, tapando a boca com as mãos.
–Vamos cair! – sai gritando pelos corredores, assustando os passageiros – Vamos cair!

Bem , cara amiga Gi, já deve saber que você é minha amiga secreta. Ciente que você é uma aeromoça aposentada, te coloquei nessa situação. O que fará? Pode terminar a estória pra mim?

Um grande Beijo e um feliz 2009.

Um Dia

Renan acordou debaixo de uma árvore e viu que tinha um dia

somente para si. Tirou os tênis, caminhou pelo terreno gramíneo e

sentiu que era fofo. Pôde perceber as imperfeições e simplicidade

de uma pedra e também os emaranhados, ranhuras e entranhas

dos troncos das árvores. Ouviu o canto dos pássaros. Chegou a

um riacho, viu o caminho das águas cristalinas. Aproveitou para

saciar a sede e se refrescar. Como era deliciosa. Olhou o céu

azulzinho e as figuras engraçadas que as nuvens formavam.

Sentou-se confortavelmente no chão e apreciou o pôr-do-sol. Não

se lembrava de quando tinha visto-o pela última vez. Depois

contemplou as estrelas e notou que a sua brilhava mais

intensamente. Há muito tempo tinha se esquecido de como a

natureza e vida eram belas. Como tinha aprendido neste dia. Então,

correu para compartilhar com as pessoas que mais amava.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

caminhante

Maria de Fátima

Articulem vossos dizeres em sons suaves, baixo.
Sons de como se rezassem, ou ninassem criança, ou velassem seu morto ou quem o sabe, falassem de amor em noite de lua grande vinda do horizonte, vermelha que nem sol.
Que vossos passos sejam passinho miúdo, um atrás de cada um, os pés quase juntinhos, o dedo grande amaciando um calcanhar.

Se vos for desejado, levem a mão arrimada a um velho bordão brilhante de servir.
E não dispensem uma roupa muito leve, bem solto o corpo nela, e um chapéu de aba muito larga, preferível que seja este de palha.
Em volta do pescoço, à laia de adorno, uma enfiada de pequenas conchas, muitas conchas de variados tons.
Nos pés um calçado leve, resistente.

Andem assim nas ruas, nos largos, nos tapetes das salas, nos parques e jardins, nas margens de lagos, rios e barragens, nos areais de praias. Andem assim por tudo aonde andarem.
Não deixem de andar nem deixem de falar tal como vo-lo digo.
Sois agora milhares. Sereis milhões e mais milhões.

Nunca mais a correria, o grito, o aperto no peito, a veia no pescoço pulsando mais forte.
Nunca mais o escape de tanto carro, o ruído do carril, o céu cortado por pássaros de vida e de morte.
Nunca mais os silêncios gritados de milhares de gentes cobertas de cores, morrendo vida ao amanhecer e repetindo-se tal ao fim da tarde.
Nunca mais a criação que apenas satisfaz a vaidade.
Nunca mais o tempo que corre apressado.
Nunca mais um choro que não seja dado.
Nunca mais um riso que não seja verdade.

E mais, vos digo eu, muito mais, merece que andemos, como vos descrevi, por toda a Eternidade.





porque não sei dizer de máquinas de fogo e desmemórias
porque não sei de buracos negros e nem de estrelas mortas
anãs, supergigantes
e nem sei de foguetes e nem prever as trajectórias entre firmamentos e nem de mais distâncias do que seja o quilómetro
porque não sei dizer de máquinas do tempo nem de robots ou gentes como seres e sendo uma plêiade de correntes, parafusos e carretos
e nem sei de material genético manipulado em funções dantescas
e nem sei eu dizer de chipes programando gente

e porque me apaixona o que há-de vir e sinto proclamado nos escritos dele: arauto, pois nosso pensamento está adiante deste invólucro belo mas limitante que nós somos.
por isso tudo que nem sei se digo quando aqui escrevo,
eu oferto ao meu amigo Samuel
(bem dito dele como Peregrino)
esse meu singelo texto, escrito numa tarde de um Julho em que, talvez eu saboreasse a multiplicidade do que somos e estivesse, quem sabe, Lhe rezando…

e junto, prosaico, mas sincero, o meu desejo de um bom ano!

imagem daqui

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Um lugar para viver















O silêncio de uma noite amena no Monte Kofa, sudoeste do Arizona, Estados Unidos, era novamente cortado por estampidos penetrantes. Com as folhagens das árvores próximas sacudidas pelos tiros, o terror mais uma vez penetrava os ouvidos sensíveis daquela criatura.



Outrora caçadora de subsistência, a onipotente aquila chrysaetos via-se agora encurralada por assassinos frios, que a desejavam apenas como um portentoso troféu empalhado, da mesma forma como já haviam feito com outros de sua família. Ainda que aquele fosse seu habitat, um lugar de paisagens belas, não obstante consideradas hostis pelos invasores, escapava-lhe motivos para ficar. Seu espírito guerreiro e perspicaz não encontrava defesa contra armas de fogo e mentes beligerantes como a daqueles homens e seus cães farejadores. Os pares da linhagem accipitridae já haviam sido dizimados e de sua espécie ela era uma das únicas no Deserto de Sonora.




Voou. Um vôo longo e sem rumo. Não sabia para onde ir, apenas queria fugir, encontrar um lugar para viver. Sentia-se agora como uma de suas presas, perdizes ou pequenos lagartos, que corriam assustados quando viam aquela sombra ágil planando por perto. O mergulho da ave de rapina era uma morte quase certa para qualquer um desses seres. No entanto, experimentava um sensação de fragilidade e medo. Cada quilômetro que se afastava do Monte Catalina era um pouco mais de pânico para suas asas carregarem. Seu porte nobre e magnânimo começava a dar lugar a um semblante de ave comum, e isso a irritou profundamente.




Lembrou-se do que certa vez um camaleão, que fora uma de suas refeições, havia-lhe dito pouco antes de virar almoço: “Você não passa de um pombo rupestre! Queria ver se manteria essa pompa numa cidade como Nova York! Lá você morreria de fome, pois lá as aves comem pipocas dos turistas e você não teria uma única lagartixa para comer!”. De certo foram as últimas palavras do réptil audacioso, mas que feriram fundo a ave de garbosa penugem amarronzada.



“Ora! Comparar-me com um pombo! Uma ave altamente repugnante, primo em sexto grau que vive à mendicância nas metrópoles!”. Aquela pitoresca conversa com o bicho gelado voltou com força em sua mente. Se pássaros tão inferiores se adequaram a tal situação desfavorável, por que não ela conseguiria passar por semelhante mimetismo?



Decidiu que iria voar milhares de quilômetros em direção à Costa do Atlântico e que se estabeleceria exatamente na chamada Capital do Mundo, a Big Apple. Não sabe se seria algo inédito em termos ecológicos. Mas, se os homens invadiam seu território para caçar indiscriminadamente, por que ela não poderia fazer o inverso? O caminho era longo e extenuante, porém, a águia real estava disposta a provar que poderia vencer o desafio e, para isso, teria de utilizar uma característica com a qual monitorava suas vítimas: a paciência. Em alguns trechos ponderou se não seria melhor tentar viver caçando pequenos mamíferos no Texas ou em Oklahoma, mas ela estava obstinada pelos ares do extremo Leste, lugares que só conhecia pelas conversas das gaivotas andarilhas.



Frio e calor intensos não perturbaram a ave solitária tanto quanto o que ela viu. Seu aguçado mecanismo visual passou a enxergar fatos e objetos que antes ela não percebia (ou que ela nem sabia que existiam). Casas, fazendas, estradas, prédios, parques, indústrias, shoppings, fumaça e barulho. Tudo lhe parecia muito estranho, ainda mais quando viu multidões de humanos andando de um lado para o outro, como formigas operárias. Enfurnados em veículos em autovias ou entalados dentro de trens e ônibus, eles fervilhavam no solo; foi nessa hora que a águia agradeceu à natureza por suas asas. “Devem estar felizes”, pensou a águia, não acreditando muito naquilo. “Mas, se vivem bem nesse caos, por que alguns se desgarram e vão nos matar lá nas colinas e desertos?”. Viu letreiros luminosos com as palavras coloridas “Burger king” e alguma coisa “Grill” e encaixou as peças: “então, essas pessoas comem vacas e bois triturados”.



O pensamento a deixou confusa por duas razões: entendeu que sua carne não era tão especial como alimento e, assim sendo, as mortes de seus familiares no Kofa seria mesmo por mero prazer. “Um reles camaleão tem carne mais nobre que a minha na escala de predadores. Ele serve para minha subsistência e eu sirvo apenas para embelezar ambientes. Coisa mais fútil eu sou!”. Antes que uma crise existencial se instalasse definitivamente na cabeça da ave de rapina, e ela acabasse por encontrar algum ponto em comum com os renegados pombos nova-iorquinos, resolveu descansar em algum ponto de Illinois, achando que, pela enorme quantidade de arranha-céus, já houvesse chegado ao seu destino final.


- Uma águia perdida no centro de Chicago! – comentou um pardal com outro de maneira surpresa e brincalhona.




- Aqui não é Nova York? – perguntou a ave, tentando manter o ar majestoso.




Eles riram e, antes de voarem do poste, debocharam:




- Você não sabe nem diferenciar cidades tão distintas e distantes! Não pode ser uma águia... deve ser algum pombo com problemas mentais, hahahaha...




Aquilo foi a humilhação derradeira. Ela disparou para cima das sarcásticas criaturas a fim de tomá-las como refeição, mas estas entraram no buraco de uma construção e escaparam.




- Não vá para Nova York! Desse jeito, lá você vai morrer de inanição! – espezinharam.




Essa declaração só serviu para deixar a águia real ainda mais decidida em sua jornada. Iria não apenas migrar à Grande Maçã como também fixaria residência por lá. Talvez não fosse uma entre tantos, conforme apregoava a cunhagem nas moedas – e pluribus unum –, onde sua imagem aparecia vistosa como o grande símbolo yankee que era, mas certamente algo de novo estava para acontecer em sua vida. Com o tempo, as homenagens seriam rendidas como fatos que se sucediam e, então, sua pequena ação teria efeitos fortíssimos em outras áreas no país, quiçá no mundo. A partir daí, viveria bem e sem muitos esforços para alcançar outras de suas metas. Por enquanto, porém, o que ela estava sentindo mesmo naquele instante era fome. Muita fome.





* * *



Aquela pequena sacola estava mesmo difícil de abrir. Sacudia, sacudia e nada. Já encontrara outras assim, mas normalmente suas garras não demoravam muito para rasgar o lixo. Quando finalmente conseguiu, viu uma sombra agigantando-se e do céu um pássaro se engalfinhou com ele na luta pela comida.




- Ei, o que é isso?? – perguntou o cachorro vira-lata, ainda sem saber bem quem era seu rival.




O pássaro, faminto e sujo, pulava e tentava bicar o que encontrava dentro da sacola.




- Eu que pergunto. Que comida é essa? – disse referindo-se ao que encontrara.
Quando viu se tratar de uma águia real, o cão de rua ficou perplexo.




- Uma águia real em plena Madison Square?




- Sim. Sou uma aquila chrysaetos linnaeus e vim de longe conhecer, com pretensões de morar, em Nova York – disse o pássaro procurando mostrar nobreza no falar.




- Já vi falcões no Central Park, mas não uma águia real. Seu porte é mesmo nobre, mas essa sua penugem empoeirada e esse seu ataque esfomeado à minha sacola lembrou-me mais um desses pombos de marquise.




- Cheguei a pouco tempo e ainda não encontrei nada para comer. Desculpe-me pela falta possível falta de educação – retrucou a ave, torcendo o bico ao ouvir nova comparação com pombos.
O insólito encontro acabou marcando uma amizade entre ambos.




- Qual seu nome, pássaro?




- Samiz. E o seu?




- Não tenho. Mas, algumas pessoas me chamam de Beethoven. Enquanto alguns cachorros ficavam parados em restaurantes finos, esperando sobras da janta, eu preferia nutrir meus ouvidos na Broadway!




- Hum... você é mesmo um cão inteligente e sofisticado, hein? – disse Samiz, lembrando dos agradáveis sons agudos que o vento fazia quando zunia pelas fileiras de cactos no Kofa.




- Apenas leio jornais, livros e revistas rasgados e amassados que as pessoas jogam fora. Não sou nenhum Beagle, Chow Chow, Poodle ou Schnauzer, mas nem por isso fico fora do que acontece no mundo. Enquanto não encontro um lar, sobrevivendo nas calçadas – disse o cachorro com alguma melancolia. – Venha, Samiz, serei seu guia aqui. Vou mostrar-lhe as melhores partes de Nova York sem gastar nada além de penas e patas.




Beethoven sabia que a ave real poderia visitar os pontos turísticos sob vários ângulos justamente por sua condição alada, mas mesmo assim gostou da possibilidade de ser um anfitrião. Samiz admirava aquele mundo novo que se descortinava em sua frente. Conheceu Manhattan, voou e pousou no ponto mais alto do Empire State, deslumbrou-se com a Estátua da Liberdade, deu rasantes pela elegante Fifith Avenue, brincou com o touro de bronze na Wall Street e se impressionou com as luzes de Times Square. Enquanto se deleitava nos endereços que Beethoven sugeria, Samiz percebeu, do alto, que a vida de seu amigo era apenas aparentemente feliz. Num dos rasantes, viu quando um menino, com uma sacola com comida, atirou um objeto na direção do cão, que empinava o focinho, tentando captar algum aroma agradável.




Vendo aquilo, a águia, desceu como um raio e infernizou o garoto que, ao correr assustado como no clássico de Hitchcock, abandonou a sacola no chão.




- Os pássaros estão me atacando! – vociferou, enquanto disparava, despertando olhares curiosos para o pássaro, que agora repousava sobre a haste de uma bandeira americana em uma loja, ajeitando as penas.




Beethoven, apesar de não ter aprovado o ataque, aproveitou para rasgar a embalagem e encontrou dentro, para sua alegria, batatas-fritas em profusão, além de uma embalagem estampando um suculento desenho de chocolate.




Samiz ficou feliz em ver que pelo menos aquele garoto serviu para alguma coisa.




- Sabe, Samiz, o que eu mais queria na minha vida era encontrar um dono. Alguém que gostasse de mim, como acontece com esses cachorros com pedigree. Eles saem, passeiam, andam pelas ruas com bonitas coleiras, voltam para suas casas e não são apedrejados.




- É, mas também não devem comer Hershey’s com avelã em seus lares... – brincou a ave com algum sarcasmo, tentando suavizar a prostração de Beethoven.




- Nossa amizade não deve perdurar muito. Como não tenho um lugar para viver, logo serei recolhido pelo serviço sanitário da cidade e você terá de ir morar na copa das árvores mais altas do Central Park, se quiser garantir uma vida por aqui.




A águia se entristeceu com os dizeres de seu amigo, pois sabia que aquilo significava o que ela também achava, mas tinha medo de admitir.




Andavam já pensando no ocaso da bonita amizade entre uma águia real e um cão, quando Beethoven chamou sua atenção para uma pequena matéria no The New York Times, ainda fechado dentro de um daqueles newspaper dispenser na calçada.




- Olhe, Samiz! “Governo proíbe caça no Deserto de Sonora”.




A ave pousou sobre a máquina e pôs-se a ler, interessadíssima, a matéria que lhe era de total importância. Ao final, ao invés de comentar sobre ela com Beethoven, chamou seu amigo e indicou uma outra, ainda menor, logo ao lado: “Garoto prodígio promove hoje oficina no Ground Zero”.



- Sei quem é essa criança. Seus avós vieram do Brasil e trabalharam no World Trade Center, mas sobreviveram ao atentado quando o garoto ainda tinha dois anos. A família dele foi solidária todo o tempo com as vítimas e, desde então, ele aparece, de vez em quando, no Espaço Zero. Lá, uma escultura provisória foi criada e passou a se chamar Monumento da Paz, alusiva aos acontecimentos com o WTC. Este garoto um menino incrível, pois consegue escrever, desenhar, cantar e ainda compor belas canções, além de conversar e ensinar às pessoas sobre seu método criativo, coisa que faz desde esse trágico incidente. Nenhuma editora ainda se interessou em publicar, pois acham que é um material que não vende, que são coisas de amor e mensagens de perseverança. Preferem algo que contenha violência, como os livros sobre os acontecimentos que vitimaram colegas dos pais de sua mãe. Certamente vale uma visita. Mas, por que isto te criou tanto interesse? – perguntou o cão, realmente curioso.



- Está dito, nas letrinhas menores sob a manchete, que ele está à procura de um cão de rua para ser sua companhia!



- Um cão?! E você acha mesmo que ele iria escolher um vira-lata como eu? Claro que não! E isso é tudo brincadeira sua, águia palhaça. Afinal, como você conseguiria ler essas letras tão minúsculas?? Ainda mais através do vidro!



Não daria para Samiz explicar o quão perfeito era seu mecanismo visual em tão pouco tempo. Ao invés de tentar responder, Samiz pediu apenas que o cão lhe dissesse onde ficava esse monumento conhecido como Esfera.



O cão apontou e Samiz voou na frente:



- Agora sou eu quem será o cicerone. Come with me!



Ao tempo em que corria, Beethoven sentia-se cada vez mais feliz. Samiz era o primeiro ser a se preocupar com ele, a participar com ele de alguma coisa, ainda que fosse um pequeno evento de um desconhecido garoto que ensinava os outros como tocar algum instrumento ou escrever belos poemas.



Ao chegarem perto da artística edificação de Koenig, Beethoven pareceu absolutamente exultante com a canção que vinha por trás da escultura.



- Que música é essa? – perguntou a águia, também estimulada pelo som penetrante e ao mesmo tempo suave.



- Não reconhece? É uma das sonatas do meu xará menos ilustre: Waldstein! – exclamou Beethoven, explicando para Samiz que o nome daquele menino prodígio era H. A. Datson, mas que praticamente todos só o chamavam de Dat.



Chegaram perto de onde vinha o som, uma pequena caixa de cor amarronzada com a palavra Paradiso, e viram um menino de nove anos ora desenhando, ora escrevendo poesias, ora tocando, ora conversando com alguns dos presentes. Seu olhar não era nem um pouco de tristeza, o que podia ser deduzido para quem só soubesse de sua história até o ponto da catástrofe, mas de uma transbordante serenidade e entusiasmo.



As pessoas que leram o jornal ofereceram-no cachorros, Akitas, Collies, Chiuauas, todos muito bonitos e bem nutridos. E a todos ele acariciava e brincava com sinceridade. Mas, quando viu o vira-lata Beethoven ao longe, misturado às pernas dos curiosos, tentando enxergar-lhe com dificuldade, não teve dúvidas: era aquele cão que ele queria ter!



Pediu que todos abrissem passagem para o cachorro que, em princípio, não entendeu que era com ele. Mas, quando viu que não havia mais ninguém atrás de si, tomou um susto. Será mesmo que o menino queria tocá-lo? Queria conhecê-lo? Queria se tornar seu dono?



Beethoven foi andando com receio, olhando as pessoas a sua volta, pessoas que antes eram sérias e, agora, afagavam sua cabeça e mexiam com seu focinho. Ao chegar próximo, recebeu um repentino, agradável e honesto abraço do menino, que fechou os olhos ao envolvê-lo. Beethoven sentiu algo que nunca sentira antes, um carinho especial que lhe trouxe profunda felicidade e, então, retribuiu-lhe com uma lambida no rosto.



- Qual será o nome dele?



- Ele já possui nome desde sempre: Beethoven.



O cão levou um susto: “como ele sabe meu nome?!”. Mas, lembrou-se que aquele era mesmo um menino especial e que provavelmente já havia depreendido, de alguma forma, que seu nome só poderia estar relacionado com esse mestre da música clássica.



- E o que é Paradiso? – quis saber mais um curioso, ao notar o nome na caixa de som.



- Meu apelido. Desde que meus avós se foram, algumas pessoas que também tiveram parentes atingidos pela tragédia, vêm visitar a minha oficina e se alegram. Como se esse pequeno espaço a céu aberto, fosse algum paraíso para elas. E também para mim.



Dat, que já havia inclusive arrumado uma coleira para o seu novo companheiro naquela tarde, levantou-se e paramentou o cão com o acessório. Beethoven mesclava felicidade e incredulidade, pois sempre apreciou o menino e sua oficina sazonal, mas nunca imaginou que pudesse tê-lo como dono um dia.



O garoto abriu passagem entre as pessoas que ali estavam sob aplausos destas para o cão escolhido. Beethoven estava mesmo impressionado com os elogios que agora lhe eram dirigido que nem se lembrou de Samiz. A ave, pousada sobre a Esfera de Koenig, acompanhava com satisfação o desenrolar do episódio. Seu amigo encontrara um companheiro e ela considerou ser melhor não romper aquele laço harmônico entre ambos.



Viu que seu jeito havia mudado com Beethoven e toda aquela saga. Adquiriu uma humildade que até então achou que possuísse; viveu momentos alegres com um cachorro vira-lata e, agora, mesmo os basset hounds farejadores do Kofa não lhe pareciam tão ameaçadores. Aquela aventura havia sido mesmo muito boa, gostara enormemente de Nova York, mas era hora de voltar. Lembrou-se da notícia sobre Sonora, de que não haveria mais caça na região, e resolveu que iria partir. Deu um último giro pela ilha de Manhattan, observando pela última vez seu amigo canino e, com a saudade já apertando seu coraçãozinho, seguiu, ainda naquela noite, rumo ao seu habitat natural no oeste do país.



Quando Beethoven lembrou-se do amigo alado, preocupou-se. Não o vira desde que estivera em estado de transe com a oficina e a sua eleição com Dat. Começou a olhar para todos os lados, para o topo dos edifícios, mas já era praticamente noite e, como não tinha a mesma eficaz visão da águia, só o que enxergava era a iluminação da Rockefeller Park. Dat, percebeu o agito do cão e parou o passeio para observá-lo. A criança era detentora de uma sensibilidade nata na compreensão de animais.



- Conte-me o que está te afligindo, Beethoven.



O cachorro impressionou-se com Dat. Parecia realmente esperar que ele o respondesse. Beethoven viu nos olhos do garoto o mesmo brilho flamejante que existia nos de Samiz, uma vivacidade que lembrava o de seus pais, cães que enfrentaram muitas dificuldades para conseguir sobreviver na metrópole que era nova York, quando se viram abandonados pelo antigo dono. Trataram de Beethoven até que ele pudesse seguir seu próprio caminho.



O sumiço de Samiz deixara Beethoven angustiado por alguns minutos, mas a tranqüilidade de H. A. Datson criou-lhe uma redoma de conforto onde sabia que poderia encontrar um pequeno paraíso de alegria. E foi mesmo o que ocorreu: quando chegou à casa do menino encontrou outros cachorros, Dálmatas, Akitas Shar Peis, entre outros. Todos com pedigree, mas, nem por isso o estranharam, ao contrário, festejaram sua presença. Dat explicou para o novo amigo que gostava de cães e que seus pais sempre compravam filhotes das mais variadas raças para ele. Apesar de gostar, H. A. ansiava também por um vira-lata de rua também. E agora, o próximo passeio seria com o time completo!



Beethoven estava não apenas intimamente feliz como teve certeza de que naquele entardecer houve alguma simbiose entre Samiz e Dat. E que isso, de alguma forma foi provocado por sua busca incessante por um lugar para viver. E o ensinamento de seu pai sempre vinha à mente:



- O importante não é ser forte, mas, sim, flexível!




__________





Feliz Natal e ótimo ano novo, Henry!

Do amigo Léo Borges.

Urso Joca e os Pardais


 

           

Era um tempo difícil para os habitantes da floresta. Os Pardais enfiaram na cabeça que eram os melhores cantores do mundo, e, querendo convencer mais alguém além deles próprios, resolveram começar a cantar nas portas das tocas dos outros bichos. Alguns nem prestavam atenção, outros se chateavam um pouco, outros ainda até achavam bonito aquela cantoria – sobretudo os gatos-do-mato, que tinham uma simpatia, digamos, ancestral pelos passarinhos. Os Pardais, coitados, até que tinham talento. Mas todos cantavam cada um em seu tom, com seu timbre particular. Alguns, tentando atingir notas mais altas que os outros, esqueciam completamente a noção de harmonia. Um dos moradores da floresta, entretanto, ficou extremamente irritado com a barulheira desarmônica: o Urso Joca.

 

            Dentro de sua caverna, o Urso Joca não fazia outra coisa senão dedicar-se à perfeição, em tudo o que fizesse. Se colhia frutas, todas eram idênticas, ou no mínimo, muito parecidas. Se roubava mel, tinha o cuidado de escolher a colméia que dava o mel mais transparente e sem aqueles pedacinhos de abelha. Se caçava animaizinhos assustados, e esses tinham motivos de sobra para morrerem de medo, Joca os preparava com muito zelo, deixava-os impecavelmente limpos e penteados para, só então, abocanhá-los. E ainda, se chegava o inverno, o Urso Joca tinha de dormir os exatos noventa dias, nem um dia a mais ou a menos.

 

            Foi justamente num inverno desses que os Pardais empoleiraram-se à entrada da caverna do Urso Joca, quando ainda lhe restavam vários dias até a primavera. Obviamente, o metódico Urso Joca saiu de lá muito, muito contrariado. Sem perder a compostura, porque o Urso Joca era muito polido, parou diante dos Pardais, endireitando os óculos na ponta do focinho redondo e preto. Em um instante, arquitetou um plano para voltar a ter paz.

 

Como não sabia falar pardalês, nem se deu ao trabalho de falar com os cantadores. Foi direto até o oco de árvore onde morava a Professora Coruja, para tomar umas aulas do dito idioma. Depois de aprender o suficiente para se comunicar, era um cursinho instrumental de sessenta horas, o Urso Joca foi tomar umas lições, imaginem só, de canto e teoria musical com o Maestro Cigarra. Como o assunto era demais interessante, deixou o curso trancado para voltar assim que resolvesse um assunto com uns certos passarinhos.

 

Retornou à sua toca. Para chamar a atenção dos Pardais cantadores, o Urso Joca pôs-se a cantarolar e a assoviar, como os passarinhos, que finalmente ficaram quietos. Assim que percebeu que estavam-lhe dando ouvidos, Joca parou de cantar e entregou a cada um deles um caderno de partituras. Como aprendeu bem o pardalês, ensinou aos Pardais tintin-por-tintin a notação musical, todas as escalas e os acordes maiores, menores, em sétima dominante e em sétima diminuta. E arriscou-se até a organizar com os pardais um coral de três vozes. Assim, Joca pode voltar para sua caminha, e dormir os tantos dias que ainda faltavam à hibernação daquele ano.

 

            Joca não ficou menos irritadiço com as imperfeições alheias, nem com as suas. Mas, quando a primavera chegou e ele saiu para dar o primeiro passeio depois dum longo sono, se bem que interrompido no meio de um sonho, sentiu-se muito bem quando ouviu os Pardais se arriscando a compor umas músicas eles mesmos a partir das preciosas dicas que ele trouxe do Maestro Cigarra. A vida dos habitantes da floresta não ficou menos difícil, mas certamente ficou bem mais suportável: os Pardais agora, queriam mostrar a todos que, além de serem os melhores do mundo, também tinham muita noção de teoria. E a música deles até que ficou bem melhor.





Feliz Natal, Jack. Você é o amigo secreto da Marcia. Como ela não estava podendo redigir o texto, incumbiu-me da tarefa - e deu-me as diretrizes do que tinha pensado. Eu só executei.

Quem teve sorte fui eu, que pude escrever para dois colegas que gosto muito.


Lista completa das Revelações

Esta lista será atualizada conforme as revelações


Carlos Alberto Barros (CARLINHOS) tirou Maristela S. Deves


DENIS CRUZ tirou Márcia


Giselle Sato tirou Volmar Camargo Junior


Guilherme Augusto Rodrigues tirou Renan Rossi


Henry Alfred Bugalho tirou DENIS CRUZ


Joaquim Bispo tirou Alian Moroz


Alian Moroz tirou Giselle Sato


Léo Borges Gonçalves tirou Henry Alfred Bugalho


Marcia tirou Joaquim Bispo - (Texto de Volmar Camargo)


Maria de Fátima M. C. Santos tirou Samuel Peregrino (SAM)


Maristela Scheuer Deves tirou Guilherme Augusto Rodrigues


Renan Rossi tirou Maria de Fátima M. C. Santos


Samuel Peregrino (SAM) tirou Caio Rudá de Oliveira


Caio Rudá de Oliveira tirou Léo Borges Gonçalves


Volmar Camargo Junior tirou Pedro Faria

Pedro Faria Proença Gomes tirou Carlos Alberto Barros (Carlinhos)

Portas - por Denis Cruz

A escuridão caiu manhosa, como uma cortina que desce lentamente no fim de um espetáculo.

- A chave! - disse a mulher de cabelos escuros. Em seus lábios, o habitual sorriso cedia lugar para um fino risco apertado, onde a carne vermelha embranquecia, como se tivesse beijado a morte. – Devolva-me a chave – até o som parecia cair, como se não dissesse palavras, mas cuspisse chumbo.

Sem paredes, sem chão. Um vazio extremo, um mundo inexistente. Inconsistente, inconsciente. Não... Inconsciente não. Era justamente isto: a consciência.

Houve tempo para se arrepender. Aliás, tempo não faltaria naquele lugar de imensidão escura.

Praguejou ao lembrar-se daqueles olhos verdes, pregados num rosto flácido, com lábios de onde pendia um fio de baba.

- Bom dia? – disse ela, a doutora, sentando-se em frente ao paciente de olhar perdido.

Folheou a ficha, sem esperar resposta, mas quando levantou os olhos, estava noutro lugar. Era luz. Era completo, repleto. Colorido, intenso. Musical como a lama primal. Um universo diferente, de céu rosado, flores com perfumes exóticos e cores híbridas.

- Bom dia, doutora – disse o homem (o ser) de intensa beleza. Lembrava a imagem do rosto deformado de seu paciente, mas remodelado em feições angelicais – Sou eu, Lisan, o esquizofrênico sentado na cadeira de rodas – sorriu ele, enquanto em seu pescoço balançava o único objeto escuro de todo cenário: uma chave negra, com três dentes e um olho alaranjado situado dentro de um triângulo.

A médica não tinha palavras. Estava sonhando, delirando? Sim, era isto. Muito trabalho e acabou por se impressionar com as vertiginosas viagens de seus loucos... não, loucos não... é antiético chama-los assim.

Meneou a cabeça, como um bêbado que tenta retomar os sentidos. Mas todo aquele universo ainda estava diante dela.

- Venha – disse Lisan estendendo a mão para a médica – Vamos andar.

Portas erguiam-se em todos os lugares, apoiadas no nada. Lisan, retirou a chave negra e a girou na fechadura de uma das portas – a dourada. Um mundo de riquezas se descortinou diante deles. Um rei sentado num trono, alegre, banhava-se com moedas e sorria... Loucamente sorria.

- É a mente de um de seus pacientes – explicou o guia – Com a chave, navegamos por onde quisermos.

Ainda sem palavras, a psiquiatra fitou Lisan. O anjo – era assim que a médica o conceituou naquele momento, por menos que acreditasse na existência de tais seres – estendeu-lhe a chave e disse:

- Você a quer?

“Sim, claro,” ela tentou dizer, mas a resposta veio em suas mãos ávidas que abraçaram o objeto negro. A chave sussurrou promessas e dádivas quando os dedos de sua nova dona se fecharam em torno dela.

A doutora acordou do transe. O débil homem ainda babava na cadeira de rodas, mas a prancheta de anotações estava no chão. Ao abrir lentamente a mão, ali estava a chave. O olho alaranjado a fitava e a médica teve a impressão de vê-lo piscar sinistramente.

Nas semanas que seguiram, a psiquiatra aprendeu a usar o objeto negro. No manicômio em que trabalhava, sentava-se no canto da sala, repleta de pessoas fora da realidade. Segurava firme na chave e viajava.

Seu próprio mundo era branco, com pouca cor. Plano, sem montanhas. Um reflexo, imaginava ela, daquele mundo pálido que é o manicômio. Esperava mais da própria mente. Esperava encontrar borrões felizes feitos pelos filhos e outras infinitas alegrias da vida, mas nada estava ali. Apenas a imensidão branca, revelando sua devoção pelo trabalho. “Escravidão”, sussurrou-lhe a chave, mas a doutora fingiu não ouvir.

Viajou pelas mentes de seus pacientes. Visitou as esquizofrenias de dentro do próprio consciente... ou inconsciente, não sei como chamar.

Entrou na porta negra, manchada de sangue. Lá dentro, cadáveres serviam de fonte para um rio vermelho. O fedor de carne podre convidava ratos e corvos para o banquete. Seu morador? Um louco homicida.

Na porta rosa, encontrou crianças alegres, frutos da mente de um pedófilo sorridente, com seu sonhado harém pueril. Visitou mundos vazios, com apenas uma criança encolhida no meio do nada, em posição fetal e “boiando” no ar.

Alegrias, tristezas, dores, todas retratadas de alguma forma, não em imagens desenhadas, não em palavras balbuciadas; sem técnicas médicas, roteiros ou livros explicando qualquer moléstia. A doutora estava lá dentro; na mente dos pacientes, vendo o que viam, sentindo o que sentiam; conhecendo o – estranho – mundo interno de cada um.

Finalmente, no meio de tantas portas, a médica encontrou uma colorida. Nela, a chave girou com um clique.

- Lisan, é você? – disse ela, espiando o mundo de cores pela greta da porta.

O anjo aproximou-se. Sorriu e atravessou o que para ele era uma porta branca.

- Seu mundo precisa de mais cores, doutora. Atravesse de novo e pegue as que quiser, em minha mente.

Ela retribui o olhar alegre como uma menina que ganha baldes de tinta para pintar uma parede. Entrou num mundo de cores fortes e, quase sem querer, lembrou-se que a violência era retratada por aqueles tons intensos nos desenhos de seus pacientes. Virou-se para trás. Lisan estava sob umbral, com um sorriso de demônio desenhado nos lábios. A chave negra novamente pendia-lhe no pescoço.

A doutora tentou correr de volta, mas seus pés afundaram num chão pantanoso enquanto a porta branca para sua mente se fechava e a escuridão vinha.

- A chave! – conseguiu gritar as primeiras vezes, mas, depois, foram apenas sussurros que esvaíam no vácuo escuro da mente alheia.

****

- Doutora Márcia! – dizia uma enfermeira enquanto chacoalhava o corpo inerte da psiquiatra, sentada no canto da sala dos pacientes. O insano fio de baba agora pendia em sua boca. – Doutora Márcia!

- Estou bem, estou bem! – disse a médica, recobrando os sentidos e limpando a umidade nos lábios – Acho cochilei.

A enfermeira sorriu aliviada (por um segundo, pensou que a médica tinha entrado em algum estado catatônico, como alguns dos pacientes). Quando a doutora Márcia se despediu, sua auxiliar não percebeu um sorriso diferente nem, muito menos, que olhos esverdeados ocupavam, agora, as antigas órbitas azuladas da porta de sua alma.










MEU AMIGO SECRETO? Márcia. Grande abraço e Feliz natal

HOMUS PARAFUSUS, por Sam


 Seis e quarenta e cinco da manhã. Chove. O céu cinzento esconde as últimas estrelas mortas. O café mormente sobre a mesa fria, alguns biscoitos deixados no pote dentro do armário. Sopra as formigas esfomeadas e come. Abre a porta. O zéfiro cortante alisa a pele, despenteia o cabelo. Acende o cigarro esperando que a chuva passe. Pronto, ele se vai, mas a chuva não passa.


Conversações sob um céu tenebroso

_Sabe o que mais me assusta, Dário? A insustentabilidade das coisas. Nada é permanente, tudo é transitório, mutável, inconsistente. O jeito que as pessoas correm, de um lado ao outro, como formigas elétricas me assusta. Não há ao que se apegar por mais de quinze minutos. A busca pelo novo. Sempre uma novidade surgindo sob holofotes impermeáveis. E os loucos gritando: Mais! Mais!

_Você está bem, Rudá?

_Não entendeu nada não é? Você acha que consigo viver assim por quanto tempo? Eu não consigo respirar! Até onde vai isso tudo? Hã?! Me diga! Vamos! Nós vivemos nesse cubículo miserável, mentindo e mentindo e você não dá a mínima! Vamos todos para o inferno!

_Olhe aqui seu doido, esse é o único trabalho que temos, portanto deveria estar grato e calado!



 Levanta-se, abandona sua mesa e corre para a janela. Acende o segundo cigarro e toma outro café. Seu nome é Rudá. Seu trabalho: Consultor de Seguro. Quanto tempo? Quatorze anos.


O Contrato

_Bom dia senhora Flores, quem fala é o senhor Rudá, seu consultor de seguro. Tudo bem com a senhora? Que bom. Estou ótimo, obrigado. Olha, recebemos o cadastro e a ficha de sinistro da senhora. Temos tudo notificado sobre o incidente, porém, infelizmente a seguradora não poderá cobrir os danos. Não, não...  Não foi erro de preenchimento. Estava tudo certo. O problema é que a apólice de seu seguro não cobre aquele tipo de dano específico. Eu sei. Entendo que a senhora vêm pagando há cinco anos, senhora Flores. Compreendo. Ok. Eu sei que a apólice assegura a casa da senhora contra queda de raios, mas a última cláusula alega que a casa do segurado tem que ter um para raios. Foi esse pequeno detalhe... Entendo. Claro. Sei que a senhora confiou em nós... Sim. Não. São as normas, senhora Flores! Eu sinto muito, senhora Flores.

E desligou.


Onze e quarenta e nove da mesma manhã nebulosa. Desce para a área de fumantes. Foram cento e vinte duas ligações. Todas sobre reclamações de apólices com vistorias negadas. Treze casas incendiadas, vinte acidentes passivos, nove furtos, quatro explosões, dois acidentados e um morto.


_O que vai fazer depois do
trampo, Rudá? Os caras do cadastro vão para aquele bar que abriu semana passada, afim?

_Não, obrigado. Não
afim. Vou pra casa.

_Cara, você precisa aproveitar melhor sua vida a vida e parar com essas reflexões doentias. Não há nada que você possa fazer pra mudar isso. O sistema é bruto! Não tempo pra lamentações. Para de bobagem e me escuta. (Sempre acontece assim, pessoas começam a dizer coisas sem nenhum significado do diálogo anterior) O que você está buscando? Você acha que vamos durar pra sempre? Não! Isso aqui é transitório, cara! Vai acabar e se tu não aproveitar, logo vai virar pó, como fumaça de escapamento! Até a Bíblia diz isso, olha aqui a sorte do dia: "Anda, come teu pão com alegria, e bebe contente teu vinho, porque Deus se agrada de tuas obras. Usa sempre vestes brancas, e não falte o óleo perfumado sobre tua cabeça! Goza tua vida." Então, fica tranquilo cara! O que te aquieta?

_Nada. Nada. Obrigado pela dica, Dário.


E se vai.

 

Cinco e quarenta e seis da tarde. Dentro do ônibus o velho pregador está a bradar:


_"Ilusão! Ilusão! Tudo é pura ilusão! Que vantagem o homem tira de seu trabalho com quem se fadiga dia após dia?! Uma geração vai outra geração vem e a terra permanece do mesmo jeito. O sol se levanta, o sol se deita, dirigindo-se para o sul, voltando para o norte. Todos os rios voltam para o mar, contudo o mar não transborda, para onde vão os rios então? Tudo é penoso, difícil de explicar. A vista não se cansa de ver, nem os ouvidos de ouvir; o que foi será, o que aconteceu, acontecerá novamente! Não há nada novo debaixo do sol!”


Rudá desce do ônibus e volta para a casa mas a chuva não para.


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Texto em parêntese extraído do livro de Eclesiastes.



*Um micro conto para elogiar a loucura de nossos dias. Meu amigo secreto é o Caio Rudá.