sábado, 27 de dezembro de 2008

Fechou - lista completa

DENIS CRUZ tirou marcia
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marcia tirou Joaquim Bispo
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Joaquim Bispo tirou Alian Moroz
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Alian Moroz tirou Giselle Sato
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Giselle Sato tirou Volmar Camargo Junior
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Volmar Camargo Junior tirou Pedro Faria Proença Gomes
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Pedro Faria Proença Gomes tirou Carlos Alberto Barros (CARLINHOS)
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Carlos Alberto Barros (CARLINHOS) tirou Maristela Scheuer Deves
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Maristela Scheuer Deves tirou Guilherme Augusto Rodrigues
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Guilherme Augusto Rodrigues tirou Renan Rossi
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Renan Rossi tirou Maria de Fátima M. C. Santos
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Maria de Fátima M. C. Santos tirou Samuel Peregrino (SAM)
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Samuel Peregrino (SAM) tirou Caio Rudá de Oliveira
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Caio Rudá de Oliveira tirou Léo Borges Gonçalves
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Léo Borges Gonçalves tirou Henry Alfred Bugalho
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Henry Alfred Bugalho tirou DENIS CRUZ

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O CONTADOR DE HISTÓRIAS

Quando criança, Maria Lení adorava ouvir o avô contar histórias. No verão, ela e os primos se sentavam embaixo dos cinamomos, comendo melancia e escutando, maravilhados, ele desfiar suas infindáveis e divertidas narrativas. Ali, sentindo o calor do sol na pele e a brisa suave vinda do rio próximo, ela fechava os olhos e mergulhava num mundo mágico, de formigas que cantavam e dançavam junto com a cigarra em vez de repreenderem-na.

Para a menina, o avô era o maior contador de histórias de todo o mundo. Podia ser uma pessoa comum, um agricultor, mas ela achava que ele teria se dado bem como escritor. Sabia como encadear as palavras. Sabia juntá-las e dar um novo significado. Sabia criar encanto, riso, emoção, magia. Sabia como contar uma história.


Os anos passaram. Maria Lení não tinha mais o avô , mas continuava gostando de uma boa história. Começou a ler muitos livros, depois sites e blogs. Foi descobrindo novos autores, novos ´contadores´. E, um dia, fez uma descoberta: um escritor iniciante com o mesmo nome do avô.

Tinham muitas diferenças, é claro. Enquanto o avô era capricorniano, ele era aquariano. O avô não tinha muito estudo, enquanto ele era acadêmico de Letras. O avô era gaúcho, ele era paulista, mas ambos eram do interior. O avô gostava de histórias clássicas ou de humor, e ele, de literatura gótica. O avô sempre parecera velho para a menina, ele era um jovem de apenas 23 anos.

Curiosa, procurou ler mais sobre esse escritor, e também o que ele escrevia. Descobriu que gostava de Chaplin e de filosofia, de Nietzsche e de heavy metal, do Zorro e de línguas, de leitura e de cinema. Escrevia poesia. Belas palavras, para fazer pensar. Era eclético: escrevia sobre gárgulas e sobre reencontros, terror e amor, destino e coincidência. Ele experimentava. Buscava se aperfeiçoar. Era uma águia, em busca de vôos cada vez mais altos.

Um dia, ele se tornaria um grande escritor. Então, olhando para o autógrafo que com certeza pediria, ela recordaria daquelas histórias que tanto a encantavam na infância. E se perguntaria, mais uma vez, o que tinha naquele nome que dava a quem o possuía o dom de contar belas histórias: Guilherme...

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Amigo Guilherme, feliz Natal um pouco atrasado, e um ótimo 2009! Sucesso, e muitas boas histórias!

Conspiração

“Pode trazer o réu”

E na seqüência dessas palavras as pesadas portas de madeira escura, com detalhes que denunciavam o barroco, se abriram, passando pelos umbrais aquele sujeito cujo destino estava para ser definido pelo que fosse deliberado dentro das quatro paredes do imenso salão azul celeste.

Talvez não houvesse motivo para tanto, mas Léo aparentava uma apreensão maior do que lhe era de costume. Ao longo de boa parte de sua carreira, ele enfrentou vários processos. Escritor ousado, agudo em suas críticas, nunca se intimidou com os riscos da prisão, nem com os impactos de suas obras na sociedade e mesmo as ameaças de morte. Naquele dia, era muito diferente e ele o sabia. Não tinha conhecimento das regras do tribunal. E mesmo que fosse condenado, ou de alguma maneira a sentença lhe fosse desfavorável, como já lhe sucedera antes, dessa vez ele não poderia conformar-se com a metáfora de “o que vale é a justiça divina” para os recursos com os quais seu advogado poderia entrar para recorrer da sentença, por duas razões básicas: não havia meios de recorrer, e, deste deriva o primeiro, tratava-se da própria justiça dos céus.

Se sua vida fosse uma obra de ficção por certo nunca poderia ser um conto, não tanto pela falta de unidade dramática ou brevidade, mas porque tudo que construíra em vida até uma fatídica noite de agosto indicava o desfecho trágico de seu enredo biográfico, enfim sem surpresas.

Não digo que sua morte foi um evento polêmico porque, em termos mais apropriados, entendemo-la como algo mais amplo, um processo como a vida, ambos em perfeito antagonismo. Mas, sem dúvidas, o último episódio da vida de Léo não destoou aos demais, causando alvoroço e grande repercussão em todo o país.

Fora encontrado morto pelo seu advogado no apartamento onde residia, embora o porteiro do prédio contestasse para si a descoberta do cadáver. Fato tal que foi matéria de muito debate nesses programas vespertinos de fofoca. Por semanas, apresentadores e seus não menos desocupados telespectadores tentaram solucionar esse grande mistério, que para eles havia sobrepujado outras questões acerca da morte de Léo. A verdade é que além desses debates inúteis, pouco se especulou sobre a causa mortis.

A investigação apontou logo a primeira hipótese como sendo a de suicídio. Era sabido que Léo estava em franca decadência. Seu último livro lançado, a despeito do sucesso de vendas, alavancadas pela febre das anteriores, foi um fracasso absoluto de aceitação. Não que suas críticas tivessem perdido coesão ou a sagacidade marcante; pelo contrário, a derradeira obra foi, e nisso há unanimidade, de uma acidez cujo PH não cabe na escala convencional. Seu grande pecado foi ter errado no objeto alvo da corrosão. Escolhido um dos pilares da sociedade moderna, ele não encontrou apoio. Todos lhe deram as costas, exceto alguns pequenos grupos que, isolados, não conseguiam fazer oposição à poderosa massa em protesto contra ele.

No âmbito pessoal, sua vida também tornara-se um inferno. A esposa, a quem as ameaças de morte começaram a abranger, pediu o divórcio quando Léo recusou-se a sair do país. Com sua ex-esposa, viu partir metade de suas riquezas, a outra indo-se aos poucos com todas as indenizações que fora obrigado a pagar. Ao cabo de pouco mais de seis meses, pouco lhe sobrou da fortuna e prestígio, de modo que, combinados os dois, admite-se um funcionário público de classe D tê-los em maior quantidade.

Mas tal idéia foi logo abandonada pelos investigadores. Embora tenham sido encontradas garrafas de whysky genuinamente escocês abertas e já consumidas, ficou provado que Léo não havia experimentado uma gota da bebida. A polícia então passou a aceitar a hipótese de homicídio. Lembro-me de um investigador em entrevista para a TV afirmando estarem em busca de um assassino supostamente amador, por tentar forjar um coma alcoólico, não tendo a vítima ingerido nada de álcool. Eu nunca me vendi a esses achismos de nossa polícia e sempre mantive a opinião de que tratava-se de um homicida inteligente, o suficiente para deixar falsas pistas a fim de prejudicar o trabalho da polícia, que já em condições favoráveis não é satisfatório. Ao final de tudo, muito pouco se esclareceu sobre o caso e a verdade da morte permaneceu um grande mistério.

E, diria sem medo de represália, também a justiça celeste não é das mais eficientes. Aliás, todo o Estado divino apresenta sérias falhas graves de estrutura burocrática. Em morte, o primeiro passo do novo cidadão é registrar-se, obtendo um documento de identificação provisório, válido até o julgamento, quando se define se ele sobe ou desce. É esse estágio que o vulgo conhece como purgatório. De fato, é nesse momento que se começa a pagar metade dos pecados, com o enfrentamento da lentidão e mau humor dos anjos das repartições públicas. Com um serviço de péssima eficiência, milhares de novos ex-terrenos vão se acumulando em extensas filas por todo o Reino Celeste.

Voltemos, então, ao momento em que adentrava o salão Léo, acompanhado por dois arcanjos, e o desespero lhe ia tomando conta. Vá lá saber o que se passava naquela cabeça. Mas eu apostaria num híbrido de confusão e medo. Sim, ele temia e não caio em inferências, pois ele suava – eram visíveis as gotas de suor que escorriam da face. Ele tremia, andava desconcertado, descompassado, até que lhe ordenaram sentar-se.

Ajeitado numa cadeira de mesma madeira que as portas pelas quais tinha acabado de passar, foi assustado que ouviu:

“O réu: Léo Niti de Matos, 34 anos de vida terrena, hoje enfrenta o maior dos seus desafios, o de passar pelas acusações na Corte Suprema do Reino dos Céus e Inferno de Baixo.”

Logo em seguida, um sujeito ergueu-se e, preocupado, solicitou uma pequena pausa ao Senhor. Soube-se que ele era promotor do tribunal quando ele e os demais colegas se reuniram improvisadamente ali mesmo no salão, indo algum deles, depois de alguns minutos, comunicar algo ao Senhor.

Curiosamente, aconteceu algo cuja causa, embora não possa provar, estava diretamente ligada à diminuta assembléia que se estabelecera há pouco: o tribunal se desfez. A acusação alegou não ter coletado provas suficientes para poder seguir em frente, e como isso devia ter sido feito durante a vida do réu, não haveria maneira de prosseguir o julgamento. O Senhor afirmou ainda que, em casos como esses, que não eram raros, por sinal, nada podia ser feito que não permitir que o indivíduo obtivesse acesso integral ao condado do Céu, afinal a acusação não tinha provas para mandá-lo para o vizinho de Baixo.

A cara de Léo no instante de tal anúncio denunciava uma felicidade extrema. Salvo em última hora, nunca a sorte lhe prestara tamanho favor. Dentre inúmeros pensamentos que infestavam sua mente àquele momento, um que nunca lhe ocorreria era o da verdadeira razão pela qual cancelaram sua provável condenação ao condado do Inferno. Afinal, coitado, nunca pensaria em retaliação divina.

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Caro Léo, receba meu presente de Natal atrasado, mas os sinceros votos de um 2009 repletos de planos concretizados, todos eles com a mesma perfeição com que trabalha seus textos.

Grande abraço.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

XXXI


A resolução de voltar à América do Sul e o encontro com o astrónomo turco

Embora tivessem acreditado, durante algum tempo, que a vida e o trabalho na quinta os libertava de três calamidades – o aborrecimento, o vício e a necessidade –, o certo é que Cândido, Pangloss, Alian, Cunegundes e os outros não aguentaram muito tempo aquela vida demasiado rural e preferiram arriscar sujeitar-se às sevícias da necessidade, a fim de voltarem a saborear os estímulos do vício urbano e, sobretudo, livrarem-se da assoberbante prevalência do aborrecimento. Venderam a quinta a um fellah que tinha um negócio de hortaliça porta-a-porta, dirigiram-se ao porto de Constantinopla e compraram passagens no cargueiro Payflower que se dirigia a Sacramento. Tencionavam, a partir desse destino, viajar para norte e, quiçá, voltar a encontrar o Eldorado, de grata memória, ou mesmo Curitiba, que as lendas diziam ser ainda mais fabulosa.
A viagem foi longa e Pangloss entretinha-se a perorar sobre os efeitos e as causas no melhor dos mundos possíveis. Dizia que Deus escrevia direito por linhas tortas, pois, se quisesse que eles se transformassem em amáveis agricultores, não lhes tinha inculcado enfado na alma e calos nas mãos. Cândido aprovava e apalpava o interior das ditas. Alian dizia que Deus era uma criação humana e que, portanto, era efeito e não causa. E que o livre arbítrio existia, não por maquinação sub-reptícia de um deus mal assumido, mas pela ausência desse mesmo Deus, fosse bondoso, como o mito cristão gosta de o pintar, ou cruel e vingativo como o do Velho Testamento. Cunegundes, enjoada com os balanços do navio, passava a maior parte do tempo dentro duma nebulosa etílica.
A bordo seguia também um matemático e astrónomo turco que raras vezes se via, porque passava as noites no convés a admirar as estrelas. Certa vez, envolveu-se numa troca de opiniões com Alian e Pangloss.
– A grande demanda da minha vida – dizia ele – é conseguir realizar a quadratura do círculo. Estou convencido que em breve a alcançarei.
– Ah, caro leitor, perdão, amigo – retrucava Alian – temo desiludi-lo, mas tal é impossível. É que Π (Pi) é um número transcendental e como tal não pode ser construído um segmento de recta equivalente, usando somente régua e compasso.
Esta resposta, avançada para o seu tempo, levou a uma longa discussão que seria ocioso transcrever, mas que, duas horas depois, evoluiu para:
– Também hei-de provar que Fermat não tinha razão – arrazoava o turco. – A grande demanda da minha vida é encontrar um expoente diferente de 2 que sirva a equação apresentada por ele.
Pangloss, adiantava-se:
– A harmonia pré-estabelecida não pode ser alterada, sem que o mal apareça. Tudo está bem como está.
E outros cumes de elegante argumentação.
Por fim, aportaram à colónia de Sacramento, às primeiras horas de 26 de Dezembro, onde ninguém os esperava.


***

Votos de continuação de boa viagem, Alian!

O Pergaminho Esquecido


Henry Alfred Bugalho


Kzar parou diante da bifurcação na trilha da montanha e refletiu.

Por doze meses, ele percorreu o mundo em busca do pergaminho esquecido: havia enfrentado bandidos, gigantes, dragões, feiticeiras e necromantes. Organizando as peças deste quebra-cabeça sem fim, tentando encontrar a pista definitiva, que lhe indicasse o paradeiro da relíquia.

O último adversário — um elfo negro — só revelou o que sabia após tortura. Kzar, sempre um nobre combatente, não se reconhecia nos métodos que tinha de utilizar. Para alcançar seu objetivo, tinha de jogar o jogo dos inimigos.

— No cimo da montanha... — o elfo murmurou, enquanto sua vida se esvaía junto ao sangue que jorrava dos membros decepados — É lá que está o que busca.

Mas agora Kzar estava diante dum impasse — a bifurcação na trilha da montanha. Um dos caminhos levava para cima, para o cume, para onde jazia o pergaminho, o outro levava para o vale, para a cidadela, para onde moravam sua família e amigos.

— Doze meses! — Kzar arfava — Doze meses longe dos que amo! Vale a pena tanto esforço por causa dum mero rolo de papel?

Esta era a pergunta que ele se fazia desde o primeiro dia em que partiu em viagem. Não sabia qual era o conteúdo do pergaminho, mas os boatos diziam que quem o possuísse dominaria céus e terra, seria louvado pelas nações, sua fama seria eterna.

— Vale a pena? — Kzar repetiu, e sua voz retornou em ecos pela imensidão. Veio-lhe à mente o rosto da esposa e dos filhos: Lívia faria aniversário em poucas semanas e Kalel já deveria estar aprendendo o manejo do arco com o avô. Recordou-se dos anos que se refugiou nos pastoreio, para escapar de seu destino de guerreiro. Mas não se pode fugir de sua natureza, ele concluiu, e viu mais sangue nestes últimos meses do que em toda sua vida pretérita. Mesmo que eu jamais obtenha o pergaminho, meus feitos serão cantados pelos vates. Derrotei os mais temidos oponentes, pisei nos territórios mais longínquos, vi coisas que outros olhos não sobreviveriam para ver — Basta! — Kzar se decidiu — Voltarei para os meus.

O herói desceu a montanha e chegou à cidadela. Foi saudado com festividades nunca vista antes naquela região.

Kzar retornou à vida pacata, dos dias sem surpresa, mas de afeto e conforto. No entanto, todas as noites, após seus filhos terem ido dormir, após ter amado sua companheira, Kzar subia ao sótão e narrava suas histórias em pergaminhos que seriam encerrados num baú.

Numa destas histórias, ele narrou a decisão diante da bifurcação na montanha, mas, apenas desta vez, ele optou pela trilha do topo e dos perigos que guardavam o pergaminho esquecido, dos monstros que enfrentou lá em cima e da grande glória obtida.

O que Kzar não poderia esperar é que, um dia, durante uma faxina, sua esposa encontraria o manuscrito e, impressionada com a história, a mostraria ao sábio da cidade, que levaria ao Duque, que, por sua vez, ordenaria a impressão e encadernação daquela história em códices.

Kzar jamais havia visto ou conquistado o pergaminho esquecido, mas a história que ele escreveu conquistou os ouvidos e corações de todos os povos e, hoje, ela é até mais conhecida do que a lenda do pergaminho: as aventuras de Kzar são contadas nas praças públicas, para crianças antes de elas irem dormir, nos teatros e nos salões da corte.

A imaginação venceu o pior dos inimigos — a realidade.


Feliz Natal, Denis, e um ótimo Ano-Novo para você e para sua família!

Idade

Eu estava me sentindo muito velho naquele dia. Estava andando desde umas sete horas da manhã, quando vi uma cena curiosa:
Havia um homem sentado na beira da estrada. Do lado dele, uma vitrola sem disco, mas que mesmo assim emitia um som melodioso. Na mão do homem, um bloco de papel. Ele escrevia numa velocidade incrível, mas não parecia se cansar. Cada folha que ele terminava, ele lançava ao vento. Foi então que eu vi que o som que saía da vitrola era visível: Notas agrupadas flutuavam do aparelho musical, e cada folha que voava encontrava algumas dessas notas e fundia-se a elas.
Curioso, apoiei-me em minha bengala, e perguntei para aquele jovem como ele fazia aquilo.
“É questão de querer”, ele me disse.
“A música sai de dentro, ela vem do coração. Você só precisa pensar nas coisas boas da vida. Em livros, em música, em filmes. Pensar na sua namorada, em seus filhos, mesmo que esses ainda não existam no plano físico. Você precisa apenas exercitar a sua mente, até que ela se estique até seu coração, e a música sai. Se você conseguir colocar seus problemas de lado por um tempinho, você vai ver como as coisas fluirão facilmente. Tente”.
Ouvir aquelas palavras sábias de alguém, que naquele momento deveria ter a metade da minha idade, foi realmente inspirador. Ele me cedeu o bloco, e eu fechei os olhos e tentei pensar em tudo o que ele falou. Demorou um tempinho, mas logo tinham palavras minhas flutuando no vento, ao lado das dele e de outros como ele.
Eu o agradeci, e levantei-me restaurado. Vi que o Sol brilhava, e que não precisava mais da bengala.
Lembrei que tinha apenas 19, e mais preocupações do que deveria. E tenho a agradecer a ele, e às palavras dele.


Feliz Natal Carlinhos, tudo de bom para você, sua namorada e sua família.
Abração

O NASCIMENTO DE MARISTELA

por Carlos Alberto Barros




A grande cozinheira observava com amor seu precioso livro de receitas. Na capa, seu nome escrito em letras douradas: Maria Guerta Scheuer Deves. Sim, era um livro muito especial, e nem tanto por ser a fonte mágica de todas suas deliciosas receitas, mas por ser a maior herança deixada por sua avó, Oma Guerta Scheuer Deves.

Preparando-se para a mais importante receita de sua vida, Maria Guerta se recordava de quando era apenas Mariazinha. Parecia fazer tão pouco tempo... Como ela se extasiava com as maravilhosas guloseimas de Oma!

Lembrava-se de quando conheceu Kerb, o gato falante da avó, e como ficou espantada. “E aquelas patinhas na cintura foram demais!”, pensava e ria.

– Lembra quando nos conhecemos, Kätzie? – perguntou ela para seu gatinho assistente.

– E como poderia esquecer, minha ama? Foi um dia muito especial – respondeu Kätzie.

– É, foi sim... Às vezes bate uma saudade da vovó Oma... de quando eu só me preocupava em comer os doces que ela fazia. Era uma época tão gostosa!

– Sim, minha ama. Também tenho saudades do meu papai. Mas, agora, cabe a nós a tarefa de prosseguir com a tradição de nossas famílias. E, modéstia à parte, nossas receitas são tão deliciosas quanto as de Oma e Kerb, não?

– Sim, claro, Kätzie. Ainda bem que tenho você para me ajudar, meu querido.

Maria Guerta continuava sua conversa com Kätzie, enquanto ia separando diversos ingredientes. Contudo, os ingredientes daquele dia não eram apenas os de seus famosos biscoitos. Junto à farinha, os ovos, o leite, dispostos na antiga mesa de Oma, ela acrescentava pequenos frascos de vidro. Em cada um deles, havia uma etiqueta colorida revelando o que continham. O gato e sua ama estavam na antiga sala secreta, escondida atrás do relógio de pêndulo, onde todo tipo de ingrediente podia ser encontrado nas diversas prateleiras. Também havia livros, pergaminhos, garrafas de bebidas, e mais um monte de quinquilharias. Maria Guerta, a cada indicação de Kätzie, selecionava os itens.

– Amor – ele dizia.

– Aqui – ela respondia, e colocava o frasco respectivo à mesa.

Depois de várias indicações de Kätzie, a mesa estava cheia de ingredientes muito mais que especiais: Amor, Solidariedade, Perfeição...

Para indicar o que ia nesta receita, que era a mais importante já feita por Maria Guerta (e ela sabia que nunca faria outra igual), Kätzie utilizava um pequeno livro escrito à mão. Não era o livro mágico de receitas, era outro, pequenino, quase uma caderneta, e foi a própria Maria quem o escreveu. Este livro, também herdado da avó, era o maior segredo de Oma Guerta. Um segredo muito mais secreto que a sala escondida atrás do relógio de pêndulo, mais secreto que o gato falante Kerb, que o livro de receitas de páginas em branco... Era o segredo do nascimento de Maria Guerta.

O mistério em torno da família Guerta Scheuer Deves se dava exatamente por seus nascimentos mágicos. Não eram como os de humanos comuns, vinham de receitas pessoais elaboradas durante muitos anos. Oma Guerta, por exemplo, ficou quarenta e quatro anos fazendo anotações em seu livrinho, herdado de sua avó, até julgar ter a mais bela receita de sua vida. Os ingredientes eram os mais diversos e, claro, não podiam faltar o amor por doces e por gatos. A preparação da receita durou todo um dia. Em um caldeirão mágico, eram acrescentados os itens, enquanto o fogo alto mantinha a mistura em constante borbulhar. Tudo feito com o imenso amor de Oma. No fim, eis que surgiu o preparo mais especial já feito por ela: um bebê. Assim nasceu Maria Guerta Scheuer Deves, a neta de Oma Guerta, futura responsável em perpetuar a tradição dos deliciosos biscoitos.

E pouco antes de Oma Guerta deixar este mundo, ela revelou esse segredo maior que qualquer outro à neta:

– ... e foi assim que você nasceu, Maria.

Depois de muito conversarem, Oma contou dos últimos mistérios da família à neta, e entregou-lhe o livrinho com a receita de seu nascimento.

– Quando eu me for, as páginas deste livro voltarão a ficar em branco – disse, Oma. – Nele, você escreverá sua receita mais importante, que determinará a permanência de nossa tradição. Assim como você veio a mim, deste livro também virá sua netinha. Portanto, trate-o com muito zelo e amor. Faça todas as anotações necessárias, não importa que durem anos, você saberá quando a receita estiver pronta.

Esse momento, enfim, havia chegado. Maria Guerta preparava sua própria receita especial. As páginas do livrinho, que haviam ficado em branco, eram agora preenchidas pela letra cuidadosa de Maria, e Kätzie lia-as com empolgação. Assim como a receita de Oma, na de Maria Guerta também foram inclusos os indispensáveis ingredientes Amor por doces e Amor por gatos.

– Pronto, minha ama. Não falta mais nada – disse o felino, enquanto fechava o livrinho.

– Agora, meu querido Kätzie, vamos ao preparo! – exclamou Maria Guerta, com um sorriso gentil.

Os dois se dirigiram ao caldeirão mágico, já com o fogo aceso. Aos poucos, Maria Guerta adicionava os ingredientes. Mexendo constantemente e sempre observada por seu assistente, ela fazia tudo com muita delicadeza e dedicação. De toda aquela mistura, subia uma fumaça brilhante, quase como uma constelação, que maravilhava os olhos atentos de Kätzie.

Ao fim do dia, Maria Guerta aparentava estar muito cansada, mas seu sorriso satisfeito permanecia.

– Prepare-se, Kätzie. Já está quase no ponto para você pronunciar suas palavras mágicas.

O gato já empunhava sua colher de pau – que utilizava como uma espécie de varinha de condão –, quando percebeu um barulho estranho.

– Ouviu isso, ama? – perguntou.

– Não ouvi nada.

Meio desconfiado, Kätzie aproximou-se do caldeirão. Levantou a colher, já preparado para fazer sua mágica, quando escutou um ruído agudo, parecendo vir de um bicho pequeno. Viu, então, numa das prateleiras acima do caldeirão, um ratinho cinza roendo a tampa de um frasco com chocolate. Maria Guerta também viu o rato, mas, antes que fizesse qualquer coisa, Kätzie deu um salto habilidoso na beira do caldeirão e, em seguida, pulou na prateleira, em direção ao roedor.

– Ah! – exclamou Maria Guerta. – Cuidado Kätzie!

A aterrissagem dele foi um tanto desastrosa. Além de não pegar o rato, acertou o frasco de chocolate com sua colher, que ainda trazia na pata.

– Não! – berrou, em desespero, Maria Guerta. Ela tentou amparar a queda do frasco, mas a tampa soltou e todo o conteúdo caiu no caldeirão. – Kätziiiiiiiieee!!!

Apesar do grito, o gato parecia não ouvir sua ama. E só o que fazia era correr e saltar de prateleira em prateleira atrás do rato intruso, que corria veloz e camuflava-se atrás das especiarias. A cada tentativa de Kätzie de abocanhar o ratinho, era um novo ingrediente que caía no caldeirão. Em certa altura, atingiu uma prateleira mais alta onde ficavam antiguíssimos livros de terror e suspense. Vários deles vieram abaixo, alguns para o chão, outros segurados por Maria Guerta, e outros, inevitavelmente, dentro do caldeirão. Um deles mostrava um menino bruxo em cima de uma vassoura.

– Kätziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiieee!!!!!! – gritava em desespero Maria Guerta. – Pare com isso, seu gato arruaceiro! Vamos ter que refazer toda a receita!

Mas, o gato parecia surdo. Só tinha ouvidos e olhos para sua caça.

– Maldito rato, eu te pego! – exclamava Kätzie.

Num movimento mais brusco e arriscado, saltou em direção ao roedor tentando acertá-lo com sua colher. O resultado foi drástico. Estourou uma garrafa de vinho que, por sorte, não caiu no caldeirão, contudo, algumas gotinhas foram parar lá dentro. A pancada foi tão violenta que sacolejou toda a prateleira. Com o tremor, alguns pergaminhos começaram a rolar e cair. Eram antigos e raros estudos lingüísticos. Alguns passaram a fazer parte da receita. Maria Guerta estava furiosa.

– Kätziiiiiiie, eu te mato! Você está acabando com tudo!

Desta vez, ele pareceu ouvir. E, no instante em que deu atenção à ama, deixou sua caça fugir de vista. Quando percebeu, notou o ratinho de frente ao caldeirão. “Se não te pego por bem, pego por mal... Quero ver você resistir à minha magia”, pensou. Kätzie estava decidido a acabar com o rato usando sua mágica. Seria um último movimento desesperado.

– Kätzie, desce já daí! – disse, imperativa, Maria Guerta.

Mas ele a ignorou. Levantou sua colher mágica, preparando-se para o golpe final, e saltou, determinado. Maria Guerta gritou de ódio, e essa foi a condenação de Kätzie, já que o grito o desconcentrou. Suas palavras mágicas foram pronunciadas com vigor:

Wunderbaressen gegessen! – bradou duas vezes. E, junto às palavras, também desferiu duas colheradas. Errou o alvo: os golpes atingiram o caldeirão.

– Nãããooo!!! – desesperou-se Maria Guerta.

O desastre foi ainda maior, pois Kätzie caiu com o rabo nas chamas. Só aí esqueceu o roedor, que já havia sumido, e começou a correr desesperado, pedindo socorro à ama.

Maria Guerta logo despejou uma bacia de água no gato, que desabou, exausto e ofegante.

­– Olha aí no que é que dá, seu gato maluco! – esbravejou ela. – Sua sorte é eu que eu te amo, seu sarnento.

Quando voltou ao caldeirão, Maria Guerta teve uma surpresa. Daquela fumaça brilhante, surgiu uma outra, dourada. Rápida, ela desapareceu, deixando apenas um aroma agradável no ar. As palavras mágicas de Kätzie não atingiram o rato, contudo, surtiram efeito sobre a receita que preparavam. No fundo do caldeirão, um bebê lindo repousava, indiferente a toda aquela bagunça. Era a netinha de Maria, Maristela Guerta Scheuer Deves, que acabara de nascer.



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Maristela,

Que este e todos os outros natais e fins de ano sejam repletos de realizações pra ti e toda sua família!

Muita força nos caminhos literários! E que continuemos sempre juntos em nossas lutas escritas.

Um grande abraço do amigo Carlinhos!